Sindusfarma

2017-11-06

ARTIGO: Doenças crônicas e hospitalização

Veículo: Correio Braziliense

Autor: Nelson Mussolini

Qual é o maior problema de saúde do Brasil? Muitos afirmam que é a falta de postos de saúde e de rede hospitalar. Alguns têm certeza de que é a falta e a má distribuição geográfica de profissionais de saúde. Outros dizem que é o acesso restrito a medicamentos inovadores e às novas tecnologias. Certamente, todos esses fatores representam grandes problemas para a saúde da população. Acontece que não há uma bala de prata para resolvê-los. Isto é incontestável. Medicamentos de última geração e tecnologias de ponta são caros. Construir e equipar novos hospitais requer verbas de que hoje o país não dispõe. Mais e melhores profissionais de saúde não se obtêm num estalar de dedos, além do que é preciso oferecer salários atrativos, materiais adequados e infraestrutura de trabalho.
 
Então, não tem remédio? Tem, sim. E o remédio é mais remédio. Em épocas como a atual, em que as contas públicas estão desequilibradas, reduzir custos e maximizar o orçamento é questão primordial. Todos sabem que a população brasileira vem sofrendo de uma verdadeira epidemia de doenças crônicas adquiridas, como diabetes e hipertensão. Pois bem. Estudo recente, realizado pelo Sindusfarma com base nos dados coletados pelo Ministério da Saúde e pela principal empresa de auditoria do mercado farmacêutico, demonstra, de maneira objetiva, que com mais medicamento a saúde da população pode ser mais bem atendida.
 
Nos últimos 18 meses, a quantidade de internações no Sistema Único de Saúde (SUS) decorrentes de casos de diabetes e hipertensão diminuiu 18,96%. Em janeiro de 2016, o SUS contabilizou 18.590 internações para tratar dessas patologias; em maio de 2017, esse número caiu para 15.064 internações. Qual foi o “milagre”? Foi aumentar o acesso aos medicamentos, por meio do Programa “Aqui Tem Farmácia Popular”, evitando-se complicações no tratamento dessas duas enfermidades. No mesmo período, o consumo de medicamentos para hipertensão arterial e diabetes no programa governamental que subsidia integralmente o valor dos produtos cresceu 22,4% em unidades e 4,5% em valores. Ou seja, o cruzamento de dados de consumo de medicamentos e hospitalização revelou que, ao ampliar a oferta de produtos, o Ministério da Saúde obteve uma redução de quase três mil internações nos hospitais convencionados ao SUS.
 
Em média, um tratamento medicamentoso para hipertensão arterial e diabetes custa R$ 9,95 para o governo federal. Uma internação não sai por menos de R$ 670,00, por paciente, de acordo com cálculo feito pelo Ministério da Saúde em maio deste ano. A relação favorável de custo-benefício (a chamada custo-efetividade) é evidente. Com esse arranjo, o governo conseguiu tirar máximo proveito da dotação disponível, gastando um pouco mais com medicamentos e liberando verbas e leitos hospitalares para tratar pacientes portadores de outras doenças.
 
Elevar o investimento na assistência farmacêutica, mediante o estímulo ao programa que fornece produtos gratuitos para as principais doenças crônicas dos brasileiros, permitiria atingir pelo menos dois objetivos socialmente relevantes: ampliar o acesso da população aos medicamentos essenciais e, ao mesmo tempo, tornar mais eficiente o uso do dinheiro público – proveniente, ressalte-se, da alta carga tributária que a população é obrigada a pagar, inclusive quando compra medicamentos.
 
Trata-se, portanto, de uma estratégia bem-sucedida tanto do ponto de vista sanitário quanto econômico. E com vantagens para o país na comparação com outras ações de saúde pública: é mais abrangente e pode ser implementada com mais rapidez e investimento menor. Um ganho que se traduz em redução e racionalização de despesas do governo e das famílias e em mais bem-estar e qualidade de vida para o conjunto da sociedade.
 
(*) Nelson Mussolini é presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma) e membro titular do Conselho Nacional de Saúde.