Sindusfarma

2018-01-14

No pain, no gain

Veículo: Época Negócios

Jornalista: Marcelo Cabral

O setor de saúde tem apresentado alguns dos avanços mais espantosos em tecnologia dos últimos tempos – vide a pílula digital, que chega ao mercado neste ano. Capitalizado com bilhões para investir em inovações como essa, o americano Rob Kowalski, da gigante suíça Novartis, esbanja tranquilidade ao falar da taxa inerente de fracassos da indústria farmacêutica em seus processos de desenvolvimento.
 
A estratégia do grupo é direcionar uma parte dos recursos para projetos tidos como seguros, e outra para apostas que vão na contramão das expectativas do mercado. Ter coragem para ousar e dar tempo e espaço para que os funcionários desenvolvam suas ideias são práticas valorizadas na empresa. Bagagem não falta para Kowalski ancorar suas crenças. Formado pela Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, o executivo tem passagens por várias outras empresas de peso da área farmacêutica, como Pfizer e Schering-Plough, e hoje é um dos responsáveis pelo desenvolvimento de novos produtos da Novartis em todo o seu ciclo de produção, da área de testes clínicos até a obtenção das licenças governamentais para comercialização. Em conversa com Época NEGÓCIOS, direto de seu escritório em Nova Jersey, nos EUA, ele falou sobre as mudanças na forma como as empresas praticam a inovação e sobre como a inteligência artificial irá permitir o surgimento de algoritmos preventivos, que possibilitem o tratamento de doenças antes mesmo de um diagnóstico ou da manifestação de sintomas.
 
Quais são as inovações que mais estão impactando o setor farmacêutico?
As verdadeiras oportunidades de inovação na nossa indústria estão na tecnologia digital e na ciência de dados. Há uma convergência de fatores. Por um lado, existe um potencial incrível nesses campos, esperando para ser destravado. Por outro, quando falamos nos processos normais de P&D, sabemos que o nosso setor está em um ponto na sua capacidade de fazer descobertas de grande impacto a partir do qual é difícil subir ainda mais alto. Atingimos um platô no desenvolvimento, por assim dizer. Se você olhar o modo como a indústria realiza seus processos de pesquisa, tem sido basicamente o mesmo há algumas décadas. Sim, existem melhorias tecnológicas e nos tornamos um pouco melhores dia após dia, mas sem mudanças repentinas.
 
Agora, no entanto, essas tecnologias digitais podem alterar radicalmente tudo isso e solucionar vários gargalos. É difícil até definir exatamente para onde vão essas mudanças. Assim como todo mundo, adoraríamos ter uma bola de cristal para saber onde estaremos daqui a cinco anos. Mas estamos investindo muito para fazer parte desse processo, seja lá para onde for que ele nos leve.
 
Como esses avanços em tecnologia digital estão se refletindo em novos produtos e serviços?
Podemos agrupar isso em alguns grandes blocos. O primeiro gira em torno da ciência de dados. Por exemplo, em casos onde algum tratamento clínico esteja com o seu cronograma atrasado. Como fazer para acelerar o processo? Podemos usar para isso um banco de dados que reúne milhares e milhares de tratamentos feitos todos os anos, por 15 anos seguidos, e analisarmos quais são os fatores que normalmente aceleram esse processo. Também estamos investindo muita energia e muito dinheiro em análises preventivas de dados. São sistemas que nos permitem dizer: ‘Veja, para esse tratamento o melhor caminho é melhorar um protocolo, em vez de adicionar mais participantes, como achávamos antes’. Estamos tentando colocar em pé de igualdade o fator humano e a análise preventiva montada a partir dos milhares de experiências acumuladas, que agora podem ser pesquisados por algoritmos, para chegar a decisões melhores.
 
Já o outro grupo é o dos novos medicamentos e serviços, como a pílula digital [um comprimido dotado de um sensor biológico, que registra quando os pacientes tomaram o remédio], um tipo de plataforma na qual a Novartis foi uma das pioneiras. Entram aí também novos sensores que podem melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Como exemplo, cito um teste que hoje é o padrão da indústria, chamado de ‘A Caminhada dos Seis Minutos’. Literalmente, é um teste que analisa o quanto um paciente consegue caminhar em seis minutos. Ele é usado para detectar uma série de problemas, principalmente nos ossos, nos músculos e no sistema nervoso. Mas agora há uma nova série de sensores biológicos, aliados à inteligência artificial, que conseguem obter novas informações a partir desse mesmo teste básico, como saber qual a probabilidade desse paciente conseguir ou não subir escadas, sofrer uma queda, levar um tropeção ou mesmo caminhar com uma postura errada. Para pacientes com problemas na formação do esqueleto, por exemplo, essa informação é vital. E vale a pena lembrar que isso é só o início: estamos prevendo uma verdadeira explosão nesse segmento.
 
Em que estágio do pipeline [cronograma de lançamentos] da Novartis está esse tipo de solução?
Eu diria que está entre a parte inicial e a intermediária, ou seja, ainda deve levar um tempinho para chegar ao mercado. Embora os protocolos regulatórios ainda não tenham sido iniciados, seu desenvolvimento está sendo acompanhado regularmente pelas autoridades, o que pode ajudar a adiantar o processo.
 
As regulamentações do governo inibem a inovação ou são um mal necessário para proteger a saúde dos pacientes?
O maior problema dessas discussões sobre os caminhos da regulamentação do governo está sempre no primeiro passo, como foi a aprovação da pílula digital pelo FDA [Food and Drug Administration, a versão americana da Anvisa]. É um momento em que se explora um território que ainda não foi mapeado, que gera muitas dúvidas entre as autoridades – e em que elas fazem todas as perguntas difíceis. Superada essa etapa, as coisas tendem a ficar mais fáceis, já que muitos dos novos desdobramentos são consequência desse primeiro processo pioneiro – e isso facilita bastante a obtenção das licenças para a venda.
 
O que tem mudado na forma como a empresa inova? Como se cria uma cultura corporativa que favoreça a inovação?
É necessário é ter a mentalidade correta para entender a chegada das novas tecnologias, porque esse não é um caminho fácil: existem muitas barreiras. Algumas delas são externas, como a própria regulamentação governamental. Também existem as barreiras internas. É necessário dar tempo e espaço para que as pessoas possam ser inovadoras. Uma das coisas mais importantes é justamente a cultura da companhia. Nós temos uma série de princípios e comportamentos que são muito valorizados aqui dentro. Eu destacaria três deles: coragem, inovação e qualidade. Falamos o tempo todo sobre como essas coisas caminham juntas, colaboram umas com as outras. Aliás, colaboração poderia perfeitamente ser um quarto ponto.
 
Na prática, tentamos dizer às pessoas: ‘é ok tentar e falhar’. Porque nós vamos falhar, boa parte do que fazemos regularmente é falhar (risos). Tentamos incentivar as pessoas a criarem projetos efetivos em cima de alguma ideia que elas tiveram, em vez de obrigá-las a trabalhar da garagem de casa, no horário fora do trabalho. O espaço na empresa precisa ser um espaço criativo. Então, quando você tem uma ideia, há um lugar dentro da empresa ao qual você pode ir, dizer que vai estudar aquilo e receber ajuda para esse projeto florescer. Estamos fazendo isso atualmente em vários projetos. É importante que você consiga trazer outras pessoas e outros departamentos para se envolver nessa empreitada, de modo a evitar que ele se torne algo estanque.
 
Conectar pessoas que podem se ajudar mutuamente é outra parte crítica desse processo. Lembro de alguns casos aqui dentro onde alguém teve uma ideia e outra pessoa disse ‘isso não é parte do meu trabalho, mas gostaria de poder ajudar, porque é interessante’; e em pouco tempo tínhamos uma equipe de 15 pessoas de diversos departamentos usando parte dos seus horários de trabalho para desenvolver aquela ideia inicial. Alguns desses projetos podem inclusive receber financiamento da empresa, mas o passo inicial é ter uma cultura que abra tanto espaço quanto tempo para esse tipo de colaboração.
 
Investir em inovação é, por definição, algo arriscado. Como conciliar esses investimentos com a necessidade de gerar lucro a cada balanço trimestral?
Em nosso segmento, a inovação tem uma taxa de fracassos. Ela é uma parte inerente do que fazemos; é ok reconhecer e abraçar isso. Porque, se você não falha, você não aprende. E, se você não aprende, não obtém sucesso. Assim, temos uma estratégia dupla dentro do nosso pipeline. Parte dela é direcionada para os projetos mais seguros, por assim dizer; outra parte vai para apostas que estão na contramão do resto do mercado. Entra nessa última o desenvolvimento de algoritmos que analisam uma grande quantidade de dados, e que talvez nos permitam tratar a doença de Alzheimer antes que haja diagnósticos ou quaisquer sintomas, com base em marcadores genéticos. Tentar obter dados preventivos não é algo fácil. Alguns concorrentes poderiam olhar para isso e dizer: ‘olha, isso é arriscado’. Mas, se conseguirmos, será uma revolução. E, se não formos bem-sucedidos, nós tentamos fazer o melhor possível e teremos obtido alguns resultados que serão importantes para futuras pesquisas científicas. Essas apostas em alguns projetos que vão na contramão da expectativa nos ajudam a manter uma cultura corporativa baseada na coragem.
 
Falando em pipeline, quais são os principais produtos e serviços que vocês esperam lançar nos próximos anos?
Além desses investimentos na doença de Alzheimer, estamos preparando o lançamento de pelo menos uma molécula nova por ano, até 2020, na área de oncologia. Também temos procedimentos bem avançados ligados à prevenção de inflamações na área cardiovascular. E estamos fazendo muitos investimentos na prevenção de enxaquecas. Por fim, continuamos a estudar a terapia genética, que é uma espécie de plataforma de onde podem sair soluções para uma série de tratamentos no futuro. De forma geral, eu diria que estamos mirando naquelas áreas que têm registrado menos avanços nos últimos anos e que não estão tão ocupadas por outras empresas, porque é nessas áreas que novos tratamentos vão fazer a diferença. Sim, ainda temos uma concentração em oncologia, que é uma das áreas com maior concorrência da medicina hoje, mas buscamos entrar em segmentos como as doenças do fígado, a obesidade, tratamentos para o esqueleto e os músculos. Vemos grandes oportunidades nesses segmentos.
 
Qual será o impacto da inteligência artificial no mercado farmacêutico?
Vou dar um exemplo do que estamos pesquisando. Como uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo, nós temos dezenas de milhares de testes e estudos clínicos, feitos ao longo de nossa história. O que podemos aprender com tudo isso? Essa é a função que planejamos para a inteligência artificial: usar essa quantidade gigantesca de dados para desenvolver algoritmos preventivos. Mesmo o melhor pesquisador do mundo talvez só consiga conduzir de 15 a 20 testes clínicos ao longo de toda a sua carreira. Com essa ferramenta, conseguimos reunir em um só lugar o aprendizado gerado por vários milhares deles. Por exemplo, dados detalhados de 100 mil pacientes que passaram por testes clínicos em cardiologia – seres humanos não conseguiriam cruzar todos esses dados e gerar insights a partir deles, mas a IA consegue. Um dos pontos centrais não é só coletar essa quantidade de dados, mas saber quais as perguntas certas que precisam ser respondidas por eles.
 
Os seres humanos vão se tornar obsoletos?
Nós sempre vamos precisar dos seres humanos. A medicina é complexa, talvez seja a ciência mais complexa de todas. Eu diria que ela é mais complicada do que colocar um homem na Lua, porque isso é física, e física é algo relativamente previsível. Mas a biologia dos humanos não é tão previsível. Nós estamos mudando 1 bilhão de anos de evolução genética quando colocamos uma pílula no organismo de alguém. Além disso, sempre haverá a necessidade de tomar uma decisão final, informada, e os algoritmos são apenas um dos componentes dessa decisão. Até porque algumas dessas decisões podem contrariar os algoritmos, porque podem ser baseadas em outros fatores, como a ética, que vão além dos números puros.
 
Como é possível falar em inteligência artificial e algoritmos preventivos na medicina, em uma sociedade onde muitas pessoas ainda duvidam da eficácia das vacinas?
Eu acho que o maior impacto que podemos gerar para a sociedade é trazer novos remédios que transformem a vida dos pacientes. Eu me lembro do que ocorreu alguns anos atrás, quando aplicamos um novo tratamento de quimioterapia em uma garotinha que estava literalmente a poucas horas de morrer. Hoje, ela é uma criança de 12 anos, normal e livre do câncer. É assim que levamos nossa mensagem à sociedade. Na nossa área, nós temos a capacidade de transformar de verdade a vida das pessoas. Nós permitimos que as pessoas vivam sem doenças, enxerguem melhor, talvez vivam sem câncer pelo resto de suas vidas, ou possam passar um feriado a mais com suas famílias porque estão vivendo mais tempo. É para isso que eu venho trabalhar todo dia.