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2018-03-09

O Brasil tem excelĂȘncia em pesquisa cientĂ­fica, diz presidente da Servier

Veículo: O Globo, coluna Conte Algo Que Não Sei

Jornalista: Rennan Setti

O francês Olivier Laureau veio ao Brasil para traçar o futuro do laboratório no país, onde pesquisa com a Fiocruz tratamentos para o câncer a partir da flora local. “Tenho 60 anos, sou formado em Direito e Finanças e cheguei à Servier em 1982. Nosso diferencial é sermos uma fundação. Não temos acionistas nem fins lucrativos. Todo lucro é investido em inovação.”

Conte algo que não sei.

O Brasil possui um nível de excelência em pesquisas científicas. Aqui, há líderes mundiais em áreas como a cardiovascular, a diabetes, a flebologia e a oncologia. No desenvolvimento clínico, o Brasil é um dos lugares do mundo onde os estudos devem ser feitos.

O acordo que vocês fizeram com a Fiocruz prevê explorar a biodiversidade brasileira. Como?

Trata-se de uma pesquisa dedicada ao câncer. O projeto é baseado em extratos naturais de uma coleção de seis mil plantas que a Fiocruz possui há 30 anos. Vamos tentar identificar substâncias ativas para o tratamento de diversos tipos da doença. Se houver resultados positivos, a Fiocruz terá o direito de explorar parte deles na esfera pública, enquanto nós os exploraremos no mercado.

Qual é o estágio atual dessa pesquisa?

Pesquisadores franceses da Servier vieram à Fiocruz para analisar as primeiras amostras e avaliar a viabilidade do projeto. Como concluímos que há grande chance de haver substâncias ativas, decidimos concretizar a colaboração por meio de contrato aprovado pela Procuradoria da Fiocruz há algumas semanas. Estamos na fase de disponibilização de um alvo terapêutico para testar a eficácia das substâncias.

Como os brasileiros vão se beneficiar da pesquisa?

Se desenvolvermos um medicamento para tratamento de câncer a partir da pesquisa, estaremos prontos a compartilhar com o SUS a tecnologia de produção.

Por que procurar na flora brasileira possíveis tratamentos para o câncer?

É a primeira vez que fazemos pesquisa com produtos naturais, e a Fiocruz dispõe de algo que não existe em qualquer outro lugar do mundo. A área de oncologia é nova para a gente. Então, essa é uma das pistas que estamos seguindo.

Há outras parcerias?

Temos um projeto de micropellets, um produto que permite a liberação gradual do medicamento e a combinação de substâncias, cuja tecnologia estamos transferindo à Farmanguinhos. Ele será usado no tratamento da isquemia.

Mas algum outro explora a biodiversidade?

Sim. Temos um produto mundialmente conhecido, o Daflon, usado em tratamentos de doenças circulatórias. Ele é produzido a partir de pequenas laranjas que caem naturalmente das árvores. O Brasil tem uma grande produção de laranjas com concentração ideal de hesperidina, princípio ativo do Daflon. Procuramos produtores de laranjas que possam recolher os frutos que caem antes da maturação, dos quais extraímos a hesperidina. Estamos em contato com alguns possíveis parceiros. Aqui, a estabilidade climática é uma vantagem.

Há outros planos para o Brasil?

Este mês, lançaremos aqui um tratamento para depressão baseado em inteligência artificial. Pelo computador ou pelo celular, o software de IA se comunicará com o paciente na tentativa de despertar o prazer para determinadas tarefas. A tecnologia, chamada de Deprexis, foi tema de estudos clínicos publicados na revista “Lancet” e já foi aprovada pela Anvisa. Ela está disponível em vários países, e o Brasil será o primeiro fora da Europa.

A Servier tem interesse em explorar o mercado de saúde brasileiro por meio da tecnologia?

No Brasil, há um ecossistema favorável para o segmento da eSaúde. Estamos olhando o ecossistema de start-ups de saúde para fazermos uma parceria. Financiaremos o desenvolvimento de um dos projetos, e a startup poderá exportar a solução.