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2018-07-04

Biolab entra em genéricos e avalia compra no Canadá

Veículo: Valor Econômico

Jornalista: Stella Fontes

Uma das maiores farmacêuticas de capital nacional, a Biolab acaba de chegar a um novo mercado, o de medicamentos genéricos, com previsão de faturamento de mais de R$ 150 milhões já em 2019. A caminho de inaugurar uma fábrica de R$ 450 milhões em Pouso Alegre (MG), a empresa também estreia na área de sistema nervoso central (SNC) e tem olhado ativos à venda no Canadá, para potencialmente estabelecer sua primeira unidade produtiva fora do Brasil.
 
A entrada da Biolab em genéricos e em SNC decorre da compra da Actavis Brasil, que pertencia à israelense Teva, maior fabricante de genéricos do mundo. O valor do negócio, concluído na semana passada, não foi divulgado.
 
O Valor apurou, no entanto, que, na indústria, estima-se que a Biolab teria pago algo entre R$ 40 milhões e R$ 60 milhões pela operação, que compreende uma fábrica no Rio de Janeiro e um portfólio com 30 produtos.
 
O faturamento da Actavis no ano passado é estimado em torno de R$ 50 milhões.
 
"Vamos jogar em genéricos, mas sem abrir mão do DNA da Biolab, que é inovação", disse o presidente e um dos controladores da farmacêutica, Cleiton de Castro Marques. Com a transação, a Teva, que por aqui não conseguiu se consolidar como concorrente relevante em genéricos, limita sua atuação no país à área de oncologia e tratamentos especiais.
 
Enfrentando grave crise financeira desde a compra da divisão de genéricos da Allergan, por cerca de US$ 40 bilhões, a israelense colocou ativos à venda e cortou milhares de empregos. A fábrica do Rio não estava contemplada no plano de desinvestimentos e partiu da farmacêutica brasileira a iniciativa de conversar com os israelenses.
 
Interessou à Biolab, sobretudo, o portfólio de medicamentos de marca registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ainda não comercializados - os genéricos não estavam no foco da brasileira. Conforme Marques, são produtos de alta barreira regulatória, sem patente e com no máximo um concorrente, que serão oferecidos no mercado público e nas redes de farmácia. Por razões estratégicas, essas moléculas ainda não são reveladas. "São pelo menos seis moléculas, que serão produzidas aqui", disse.
 
As conversas entre Biolab e Teva começaram em janeiro e, em abril, já havia um acordo formal, relatou o empresário ao Valor. Condições precedentes foram cumpridas e, nessa segunda-feira, a farmacêutica brasileira assumiu a operação da Actavis. No mercado de genéricos, a estratégia não será concorrer diretamente com as grandes desse segmento, como EMS, Hypera e Medley (da francesa Sanofi). Até o ano que vem, o portfólio deve ser formado por 60 produtos, que juntos poderão responder por 15% do faturamento da Biolab.
 
"O genérico é uma realidade do mercado brasileiro, então temos de trabalhar nisso também. Vamos diluir custo de produção", afirmou Marques, ao ser questionado sobre os fatores que levaram a Biolab, farmacêutica tradicionalmente de preços mais altos e produtos premium, a um segmento marcado por forte competição e descontos elevados.
 
O grande atrativo está na outra parcela de produtos da Actavis, que permitirão à Biolab entrar com um portfólio mais robusto em sistema nervoso central, área que já estava no radar. A estratégia de longo prazo da farmacêutica está baseada justamente nos produtos de marca e em novas moléculas que venham a ser desenvolvidas no centro de pesquisas e desenvolvimento recém-instalado no Canadá.
 
Neste momento, a Biolab - laboratório de capital nacional - está investindo R$ 450 milhões em nova fábrica, em Pouso Alegre (MG), que vai dobrar a capacidade de produção, hoje de 100 milhões de unidades por ano. Em termos de expansão, porém, o passo seguinte muito provavelmente será dado no exterior. "O próximo passo deve ser uma fábrica no Canadá", disse Marques. "Já estamos olhando ativos".
 
Além da via potencial de aquisições, a farmacêutica tem dois grandes projetos de internacionalização já desenhados, informou Marques. O primeiro deles é o lançamento do Vonau (ondansetrona), para tratamento de náusea e vômito, no Peru, Equador e Colômbia, e registro também no México e na Arábia Saudita (que abre as portas em países da comunidade árabe).
 
O segundo é o lançamento do dapaconazol, um antifúngico desenvolvido integralmente pela Biolab e resultado de inovação radical. A intenção é vender o medicamento, que está em fase de registro na Anvisa para a versão tópica, também no mercado asiático, latino-americano e no Canadá. "Estamos bem abertos", comentou Marques, referindo-se a conversas com potenciais parceiros de distribuição e co-desenvolvimento.
 
No ano passado, a Biolab teve vendas líquidas (com impostos) de R$ 1,3 bilhão e, antes da greve dos caminhoneiros, projetava expansão de 12% para 2018. Neste momento, um avanço de 10% parece mais factível, observa Marques. "Maio atrapalhou um pouco", comenta. A farmacêutica é líder em prescrição médica na área cardiológica, que responde po cerca de 50% de seu faturamento.
 
Ao mesmo tempo em fortalece seu portfólio, a Biolab está promovendo profundas alterações em sua governança, com suporte da consultoria McKinsey.
 
As três famílias controladoras - de Cleiton e de seu irmão Paulo de Castro Marques e de Dante Alario Júnior - foram reunidas em um conselho de família e foi constituído um conselho de administração, com assentos ocupados pelos três sócios e dois membros independentes. A intenção é preparar a empresa para um futuro processo sucessório e, eventualmente, ao acesso ao mercado de capitais, incluindo oferta inicial de ações, caso surja alguma oportunidade de negócio que justifique tal iniciativa.