Sindusfarma

2018-10-31

Novos caminhos pela frente

Veículo: Valor Econômico, Especial Inovação

Jornalista: Vladimir Goitia

Estudos recentes apontam que as vendas globais de medicamentos, apenas com prescrição médica, devem chegar a US$ 1,25 trilhão em 2022. Essa soma gigantesca é resultado de um pesado investimento em pesquisa e desenvolvimento e inovação (PD&I), atividade que faz parte da essência da indústria farmacêutica. Atualmente o esforço é para o desenvolvimento de novas drogas associadas a doenças neurodegenerativas e cardiovasculares, além de remédios para tratamento de câncer e HIV.
 
Dados da Interfarma mostram que os investimentos globais em PD&I giram em torno de US$ 120 bilhões a  USS 160 bilhões por ano. Desse total, o Brasil participa com apenas US$ 300 milhões, o que, na opinião de Pedro Bernardo, presidente-executivo da entidade, se deve aos entraves burocráticos impostos no país, ora pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ora pelo Sistema CEP/Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa).
 
“Um pedido de pesquisa clínica aqui leva 12 meses para ser analisado, o dobro do tempo da média mundial. Na Coreia do Sul, nos Estados Unidos e em nações europeias, a mesma análise é realizada em 30 ,70 e 100 dias, respectivamente”, aponta Bernardo.
 
O Grupo Novartis, um dos maiores conglomerados industriais farmacêuticos do mundo, com vendas líquidas globais de quase US$ 50 bilhões, também lamenta o excesso de burocracia e a rigidez da legislação. Alexandre Gibim, presidente do grupo no Brasil, afirma que isso tem dificultado a condução de uma quantidade maior de pesquisas no país. “Nos últimos anos, no entanto, vivenciamos uma melhora na aprovação de novos estudos, mas acreditamos que sempre é possível aprimorar”, diz.
 
Globalmente, os investimentos anuais em P&D direcionado a áreas de necessidades médicas não atendidas do grupo totalizam cerca de US$ 9 bilhões, pouco menos de 20% das vendas líquidas da companhia. No Brasil, esse investimento é de cerca de 10% das vendas líquidas, que, no ano passado, somaram cerca de R$ 3 bilhões.
 
Recentemente, a empresa anunciou investimentos de aproximadamente R$ 1 bilhão para pesquisas clínicas que podem durar até 2022. “Esse montante pode aumentar a partir da aprovação de novos estudos. Por isso, a necessidade de o Brasil se tornar mais competitivo, agilizando os processos de aprovação de estudos", sugere Gibim. Ele informa que, no momento, a Novartis está desenvolvendo 63 pesquisas em parceria com centros de estudo no Brasil - 50 destinadas à oncologia e 13 voltadas a tratamentos para áreas terapêuticas, como respiratório, cardiometabolismo, imunologia e neurologia.
 
Embora tenha se tornado um dos principais mercados do setor, o Brasil ocupa o 14° lugar no ranking de pesquisas clínicas, com apenas 6.278 estudos em andamento, o equivalente a 2,3% do total mundial. “A pesquisa clínica multicêntrica, ou seja, a realizada em diversos países ao mesmo tempo, é fundamental para a inovação no setor. Traz benefícios que vão do acesso às drogas a oportunidades dadas a pesquisadores para realizarem projetos modernos e inovadores. Quando um país é privado disso, perdem os tudo”, diz o executivo da Interfarma, que representa os laboratórios internacionais.
 
Para incluir o Brasil na rota da inovação, um grupo de pesquisadores formado por Geciane Porto, professora e pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) e vice-coordenadora da Agência USP de Inovação, iniciou no ano passado um estudo para levantar as patentes das 20 maiores indústrias farmacêuticas do mundo e identificar as rotas tecnológicas que estão utilizando em suas pesquisas.
 
“Conseguimos identificar quase todo o conjunto de patentes em cada um dos segmentos da biotecnologia. Classificamos em seis áreas e, em cada uma delas, estamos identificando o conjunto de invenções desenvolvidas nos últimos 20 anos no mundo todo”, explica Geciane. O estudo está na fase de finalização de coleta de dados, que, posteriormente, serão organizados para construir as redes de cooperação e identificar os mercados-alvo. “Até o momento, identificam os quase 3,7 milhões de invenções nos diferentes segmentos da biotecnologia, e esse número pode chegar a 4 milhões”, diz.
 
Ao desvendar quem participa desses desenvolvimentos, será possível identificar futuros parceiros para projetos em PD&I. Na avaliação da professora, a partir desses resultados, a indústria nacional também poderá saber quem são as organizações que detêm maior conhecimento em áreas estratégicas e negociar processos de transferência de tecnologia.
 
De qualquer forma, o avanço na descoberta de novos fármacos no país ganha força. A brasileira EMS, por exemplo, já exporta para mais de 40 países, entre eles Alemanha e Inglaterra, cujas legislações sanitárias são as mais rígidas do mundo. A empresa tem hoje mais de 90 patentes concedidas em vários países e pedidos depositados no Brasil, além de mais de 400 registros de medicamentos no exterior. A EMS está presente nos Estados Unidos por meio da Brace Pharma, seu braço de inovação radical (processo com mudanças tecnológicas, estruturais e operacionais drásticas nas características de desempenho e custo).
 
“A proposta com a Brace é, primeiramente, registrar terapias inovadoras nos EUA e, na sequência, submetê-las ao registro e à aprovação de agências regulatórias no Brasil e na América Latina sob operação da EMS”, diz Marcus Sanchez, vice-presidente institucional da companhia. “Com a Brace Pharma, a empresa vem investindo um valor que deve superar a marca de R$ 1 bilhão em produtos inovadores, que serão levados para aprovação do Food and Drug Administration em um período de até sete anos”, acrescenta o executivo.
 
A EMS, que no ano passado faturou R$ 12,2 bilhões (inclui genéricos) e vendeu 518 milhões de unidades, está entre os laboratórios que mais aportam recursos em P&D no Brasil. “São 6% do faturamento anual investidos em seu centro de P&D, o maior e mais moderno da América Latina, que já conta com mais de 4 0 0 pesquisadores”, afirma Sanchez. A EMS também está presente na Europa por meio da farmacêutica sérvia Galenika, adquirida em 2017 por 46,5 milhões de euros. O complexo contempla duas plantas fabris, uma em Belgrado e a outra em Montenegro.
 
Segundo Sanchez, a aquisição da Galenika, terceira maior farmacêutica da Sérvia, segue a estratégia de internacionalização da EMS. As perspectivas de acesso a mercados em expansão de países dos Bálcãs e do Leste Europeu, na avaliação do executivo, são bastante atraentes.

Segundo ele, as parcerias internacionais e os acordos com laboratórios para o licenciamento e comercialização de produtos inovadores perm item trazer medicamentos inéditos ao país, com o benefício de já terem sido testados e aprovados em países com rígidas legislações sanitárias.
 
A partir dessas parcerias, a EMS permanece com o direito de exclusividade na comercialização desses produtos no Brasil. A previsão é fechar pelo menos cinco acordos desse tipo por ano nos próximos anos.
 
Sanchez informa também que a meta da EMS este ano é manter a liderança no mercado de genéricos, posição ocupada desde 2013 . “A expectativa da unidade de negócios de genéricos da companhia é crescer 20% em faturamento.” A também brasileira Hypera Pharma (antiga Hypermarcas), cujo foco está no mercado nacional, investiu cerca de R$ 70 milhões em um novo e moderno centro de pesquisa e desenvolvimento em Alphaville (SP) para introduzir novos conceitos e tecnologias farmacêuticas no país, de acordo com o CEO Breno Oliveira.
 
Segundo ele, esse centro de pesquisa, onde mais de 200 químicos e farmacêuticos trabalham, quadruplicou a capacidade de desenvolvimento de projetos da companhia. Oliveira explica que cerca de 4% da receita líquida da Hypera Pharma foi investida em inovação e desenvolvimento de novos produtos no ano passado.
 
As novas instalações abrigam equipes especializadas em áreas como pré-formulação, desenvolvimento de produtos e pesquisa analítica de materiais de embalagem e documentação. “Nos últimos 12 meses, até junho deste ano, cerca de 29% de nosso faturamento líquido teve origem em produtos lançados nos últimos cinco anos. Não atuamos no segmento institucional, composto pelo setor público e hospitais privados. Estamos focados no canal varejo farmacêutico, onde a inovação incremental (lançamentos de produtos no mercado com tecnologia exclusiva) é mais importante.”