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06/02/2022
Hugo Nisenbom: "Ainda que eu venda remédio, eu acredito na prevenção e na vacina"

Veículo: Folha de S.Paulo, coluna Painel S.A.

Colunista: Joana Cunha

À espera de resoluções para uma liberação emergencial de seu antiviral contra a Covid, o CEO da farmacêutica MSD Brasil, Hugo Nisenbom, diz que, mesmo vendendo remédios contra a doença, acredita na prevenção e que todas as lideranças deveriam estimular a vacinação.

"Podem dizer que prevenção faz vender menos remédio. O meu sentido é que todas as pessoas que têm uma posição de liderança, seja na imprensa, nas empresas ou tomadores de decisão em saúde, nós temos que mirar a ciência e cuidar das pessoas", diz.

Em que pé está o antiviral da MSD? 
Hugo Nisenbom - O produto já foi aprovado por várias agências importantes como Japão, Reino Unido. A pandemia está pior do que nunca com a explosão da ômicron. Essa variante é menos agressiva, mas o total de pacientes é maior.

Nos últimos dias, aconteceram algumas coisas bem importantes. Estudos independentes mostraram que o produto tem eficácia contra a ômicron. Ele vai ter um papel importante, porque é um tratamento oral, antecipado. É o produto ideal, pelo menos, para o grupo de risco, pessoas idosas, com comorbidades.
Ele não tem interação com outras drogas, e os pacientes de risco, normalmente, tomam outros remédios.

E no Brasil? 
Hugo Nisenbom - Nós já apresentamos o dossiê para a agência regulatória. Tem algumas perguntas da agência. E temos esperança de, já em fevereiro, poder ter um pronunciamento com uma autorização emergencial.

Isso é a primeira coisa. A segunda é que já vínhamos trabalhando e estamos muito avançados em uma negociação com a Fiocruz para dar acesso, ou seja, com um acordo em que nós basicamente vamos transferir parte da tecnologia não só da manufatura, mas também a ideia é poder fazer outros estudos.

E, obviamente, uma vez aprovado, estamos informando o governo. E ele tomará a decisão, esperamos, de incorporar ao SUS. Deveria ser a sequência lógica para o Brasil.

Fazer um acordo como esse requer muita negociação, muita letra pequena, muitas partes envolvidas. E isso está praticamente no final. Está sendo revisado. E a parte regulatória também. Esperamos que nos próximos dias, ter boas notícias.

Seria produzido aqui no Brasil? 
Hugo Nisenbom - No começo, viria dos Estados Unidos, para, depois, abrir transferências de algumas partes produtivas pouco a pouco. O convênio faz com que o produto seja muito mais acessível, de acordo com as condições do país.

Nós firmamos com as Nações Unidas um acordo para oferecer gratuitamente a patente para 115 países pobres. Quem pode pagar mais, como os EUA, paga. Quem pode menos paga menos ou não paga.

Nossa ideia é dar acesso a este produto porque nós acreditamos que é nossa responsabilidade. E é uma contribuição da empresa a uma necessidade médica não atendida.

Ainda que eu venda remédios, eu acredito na prevenção. O Brasil era um modelo e teve uma queda nas taxas vacinais de outras vacinas que não são de Covid. É preciso evitar a volta de enfermidades que já têm vacina aprovada. Há uma perda de foco, mas é dramática a queda de outras vacinas.

Em 2019, teve problema gigante com sarampo, porque deixaram de vacinar em alguns lugares. Tem de encorajar a população.

A vacina foi politizada no Brasil, inclusive pelo presidente Bolsonaro. O sr. tem o receio de que um remédio antiviral seja também politizado com a mensagem de que não é mais preciso tomar vacina? 
Hugo Nisenbom - No mundo inteiro se politiza, não sei por quê. Eu sou PhD em bioquímica. Honestamente, creio nos fatos.

Na MSD, o fundador George Merck dizia que os remédios e as ciências são para os pacientes, que têm de ser prioridade, e o lucro tem de ser consequência por ter sido feita a coisa correta. Então, ainda que seja uma decisão que não seja boa comercialmente, eu sempre coloco o paciente em primeiro lugar.

Eu não sei o que passa na política, não sou especialista, não sou brasileiro, mas eu vejo em outros países do mundo que as pessoas tomam posições conforme as suas crenças, de acordo com os grupos antivacina ou crenças políticas. O que eu sei é que eu quero que meus filhos e pais sejam vacinados. E eu mesmo, tenho todas as vacinas, e obviamente, tenho as três doses contra a Covid e tomarei a quarta quando vier.

Eu acredito na prevenção. Se eu fosse ministro da saúde, faria três coisas: daria água potável a todos, faria uma educação de vida saudável com alimentação e exercícios e vacinaria contra tudo.

Vacinas não são a parte maior do nosso negócio. Podem dizer que prevenção faz vender menos remédio. O meu sentido é que todas as pessoas que têm uma posição de liderança, seja na imprensa, nas empresas ou tomadores de decisão em saúde, nós temos que mirar a ciência e cuidar das pessoas.

Qual seria o tamanho do mercado do antiviral no Brasil? 
Hugo Nisenbom - Não temos muitas cifras, porque esse mercado está começando no mundo. Há estudos em vários países. E o Brasil tem potencial grande para o uso desse produto, com uma população superior a 200 milhões de pessoas. E são milhares de casos de Covid por dia.

O ideal é que esse tratamento seja encaminhado pelo governo para que todos tenham acesso. Vai depender das decisões de governo. O que está está claro é que tem custo benefício se comparado a qualquer internação.

Raio-X
Presidente da MSD Brasil, o executivo está há 25 anos na empresa, onde assumiu a direção em 2016. É farmacêutico com mestrado e doutorado em bioquímica e MBA em administração. Iniciou sua carreira na Argentina e atuou em diversas subsidiárias da MSD da América Latina. É também presidente do conselho diretor da Interfarma

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