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16/05/2014
Artigo: Falando sério sobre automedicação
Veículo: Correio Braziliense

Autor: Nelson Mussolini

Pesquisa recente em 12 capitais do país reaviva o debate sobre os riscos da automedicação. Segundo o estudo, 76,4% dos brasileiros se automedicam e um terço desse contingente afirma não seguir orientação de médico ou farmacêutico para definir a dosagem.

O ponto recorrente suscitado pela pesquisa — que causa estranheza — é a crítica genérica e superficial de alguns médicos e farmacêuticos à automedicação, como se ela fosse condenável em si.

Na verdade, praticar a automedicação não é nenhum absurdo. É um procedimento recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como meio eficaz de cuidar de indisposições leves, desde que feito com responsabilidade e segundo as indicações do produtor.

Em todo o mundo, os Medicamentos Isentos de Prescrição (MIP) são adequados ao tratamento de sintomas e males menores, como dores e resfriados, porque seus princípios ativos estão bem abaixo das doses tóxicas.

Além disso, os MIPs desoneram os sistemas públicos e privados de saúde, liberando recursos para casos que demandam mais atenção. Algo desejável num país com ainda tantas carências nesta área como o nosso.

De todo modo, é fato que, a par dos benefícios que traz à qualidade de vida e longevidade dos indivíduos, todo medicamento oferece riscos potenciais e deve ser consumido de forma consciente. Por isso, reforçar a vigilância dos produtos disponíveis no mercado é uma meta permanente para reduzir as reações adversas a medicamentos.

Nessa categoria estão reações orgânicas de diferentes origens e intensidades, que podem estar associadas a diagnósticos, tratamentos, dosagens, sensibilidade dos indivíduos etc. e não são necessariamente graves.

Muito se fala da automedicação como principal fonte de intoxicação, mas os levantamentos disponíveis no Brasil indicam que, embora seja de fato um hábito arraigado, como atesta a referida pesquisa, o consumo de medicamentos sem orientação médica não é um problema grave de saúde pública no país. O brasileiro tampouco consome medicamentos em excesso.

No Brasil, a automedicação provocou 1% dos 98.765 casos de intoxicação por agentes tóxicos diversos (agrotóxicos, produtos de limpeza, animais peçonhentos etc.) registrados em 2011 (estatística mais recente). Esse porcentual é equivalente às intoxicações por alimentos e agrotóxicos.

E, ao consultar o quadro de mortes por intoxicação naquele ano, constata-se que a automedicação provocou um único óbito, ante as oito mortes resultantes de acidentes com agrotóxicos e as duas motivadas pelo uso inadequado de cosméticos.

Esses dados são do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), principal instituição responsável pela coleta, compilação, análise e divulgação dos casos de intoxicação e envenenamento notificados no país.

O grande problema sanitário relacionado ao consumo de medicamentos é outro. Este, sim, relevante: a compra com relativa facilidade nas farmácias e pontos de venda não autorizados de medicamentos de tarja vermelha ou preta sem a exigência da receita médica. Uma prática ainda corriqueira no Brasil, que muitos atribuem às deficiências de atendimento dos sistemas de saúde público e privado.

Seja como for, essa é a verdadeira questão a ser enfrentada. É preciso que a dispensação de medicamentos tarjados siga o mesmo controle rigoroso imposto à indústria farmacêutica nas etapas de pesquisa, produção e distribuição.

Se o problema maior é cultural, como disse um líder dos farmacêuticos, que se mudem os hábitos dos brasileiros. Afinal, não aprendemos a usar o cinto de segurança nos veículos e a não fumar em recintos fechados?

A adesão da sociedade a esses novos costumes, de grande impacto na saúde pública, exigiu processos firmes e contínuos que mesclaram medidas educativas e punitivas. O mesmo terá de ser feito no caso da venda de medicamentos potencialmente mais tóxicos.

A redução dos acidentes com medicamentos requer a educação de pacientes, o aperfeiçoamento das práticas clínicas e uma fiscalização mais atenta por parte das autoridades sanitárias. Tarefa que cabe a médicos, farmacêuticos, hospitais, empresas e órgãos reguladores.

De sua parte, a indústria farmacêutica reafirma seu compromisso permanente em aperfeiçoar práticas que protejam a população e ampliem a segurança no uso de medicamentos.

Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma) e membro do Conselho Nacional de Saúde
 
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