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31/07/2020
Fórmula personalizada

Fonte: Valor Econômico, caderno especial Indústria Farmacêutica

Jornalista: Gleise de Castro

A indústria farmacêutica está entre os setores que mais investem em pesquisa e desenvolvimento (P&D), um total de US$ 186 bilhões em 2019, com previsão de chegar a US$ 233 bilhões em 2026, conforme dados da empresa de inteligência de mercado EvaluatePharma. O valor destina-se ao desenvolvimento de tratamentos inovadores, principalmente para doenças crônicas e complexas, mais frequentes com o envelhecimento da população.

A partir deste ano, a cifra passa a embutir os recursos que estão sendo dirigidos a pesquisas para medicamentos e vacinas contra a covid-19, um total ainda não avaliado. No fim de julho, a Plataforma Internacional de Registro de Ensaios Clínicos, banco de dados da Organização Mundial da Saúde (ICTRP/OMS na sigla em inglês), registrava 1.997 estudos relativos à pandemia causada pelo novo coronavírus.

As novas rotas da pesquisa terapêutica, mais eficientes com o uso de recursos como inteligência artificial, convergem para a medicina personalizada, com técnicas de precisão e tratamentos específicos para pequenos grupos de pacientes. Na fronteira inovadora, destacam-se as terapias gênicas, desenvolvidas a partir de manipulação celular.

Câncer e doenças neurológicas, especialmente as degenerativas, lideram os investimentos em P&D. Nessas áreas, a medicina individualizada tem feito grandes avanços. Na oncologia, ao centralizar o tratamento na origem do tumor, a medicina de precisão tem maior chance de destruí-lo. Técnicas como terapia-alvo molecular, que utiliza medicação específica para determinado tipo de câncer e ataca apenas células tumorais, visam aumentar a precisão do tratamento, com menos efeitos colaterais. Já com a imunoterapia, o sistema imunológico é estimulado a reconhecer e combater o tumor.

“Em vez de uma droga que sirva para todos, os tratamentos estão cada vez mais individualizados”, diz André Abrahão, diretor médico da Novartis. A empresa, que investe cerca de US$ 9 bilhões globalmente em P&D, pretende lançar no Brasil, até 2024, cerca de 17 medicamentos e 10 novas indicações nas áreas de oncologia, sistema nervoso central, oftalmologia e de produtos biológicos. Um de seus lançamentos em 2019 foi o comprimido revestido Pigray (alpelisibe) para tratamento de determinado tipo de câncer de mama avançado ou metastático em mulheres na pós-menopausa. Entre os lançamentos de 2020, o Miflonide Brizz (budesonida) é indicado para asma brônquica e doença pulmonar obstrutiva crônica.

Também com foco em medicina personalizada, a Roche espera lançar até o fim do ano um teste em biópsia líquida que mapeia 324 genes do câncer a partir de uma coleta de sangue. A nova tecnologia - FoundationOne Liquid CDx -, em processo de validação pelo FDA, agência reguladora de medicamentos e alimentos dos EUA, é uma evolução do perfil genômico e é indicada como recurso adicional a decisões médicas e quando o acesso cirúrgico para a biópsia tradicional é inviável.

“No futuro, poderemos ter programas de rastreio de câncer na população baseados nessa tecnologia”, prevê Lenio Alvarenga, diretor de acesso e medicação da Roche Farma Brasil, que investe 20% da receita global em P&D. No Brasil, foram aplicados R$ 685 milhões nos últimos quatro anos e a projeção é investir mais R$ 300 milhões em 2020. Entre os medicamentos inovadores, o Alecensa (alectinibe), fármaco sintético oral para tratamento de câncer de pulmão avançado, com presença da mutação ALK, uma das alterações genômicas identificada pela biópsia líquida.

Roche e Novartis investem ainda em pesquisas sobre medicamentos para combate à covid-19. Em conjunto com a Gilead, a Roche investiga a ação de seu antiinflamatório Actemra (tocilizumab), usado para artrite reumatoide, em associação com o antiviral remdesivir, da Gilead. Já a Novartis avalia no momento a eficácia e segurança de dois medicamentos de seu portfólio para o combate à reação exagerada do sistema imunológico associada à covid-19 - o Ruxolitinibe, droga experimental indicada para o tratamento de mielofibrose e policitemia vera, e o Canaquinumabe, cujas indicações incluem artrite idiopática juvenil sistêmica (AIJS), febre familiar do Mediterrâneo (FFM) e doença de Still.

Com mais de 50 novos produtos em desenvolvimento, a EMS destina 6% do faturamento anual a inovação em quatro frentes - genéricos de alta complexidade, inovação incremental, medicamentos biotecnológicos, por meio da Bionovis, da qual é acionista, e inovação radical, com a Brace Pharma. Criada pela EMS em Maryland (EUA), a Brace Pharma desenvolve terapias inovadoras em áreas como oncologia, cardiologia e sistema respiratório e doenças neurodegenerativas, metabólicas e autoimunes.

Por meio de sua controlada Vero Biotech, sediada em Atlanta, Geórgia (EUA), a EMS, obteve aprovação de seu primeiro produto inovador submetido à FDA, um dispositivo portátil da nova geração de óxido nítrico inalatório, o Genosyl, para tratamento da hipertensão pulmonar resistente em recém-nascidos e utilizado por médicos americanos para tratar um paciente com covid-19 em isolamento domiciliar. No mercado brasileiro, a empresa lançou produtos como Toragesic, anti-inflamatório de alta potência analgésica, patenteado na Europa, Estados Unidos e Brasil.

Com sete fábricas no Brasil e uma nos EUA, a União Química vai investir neste ano mais de R$ 100 milhões em inovação. Entre as novas moléculas em estudo está a IQG, para tratamento de tuberculose e prevista para lançamento dentro de três a quatro anos. “Este é nosso projeto mais avançado, destinado a casos da doença resistentes a tratamentos antigos”, diz Miguel Giudicissi, diretor científico da União Química. Entre os produtos com inovação incremental, a empresa desenvolveu o Lumier Age, à base de peptídeos de colágeno em associação com outras substâncias, para combater o envelhecimento da pele, e Cognicx com fosfatidilserin, indicado para tratar deficiência de memória.

Criada pelos grupos EMS, Hypera Pharma, Aché e União Química para atuar em medicamentos biológicos, a Bionovis vai investir R$ 421 milhões até o fim de 2021 para concluir a implantação de sua fábrica em Valinhos (SP), onde produzirá biofármacos de alta complexidade. A empresa já produz o primeiro biossimilar de alta complexidade para uso no Sistema Único de Saúde (SUS), o Etanercepte, indicado para doenças autoimunes, por meio de uma Parceria de Desenvolvimento Produtivo (PDP) firmada com Samsung Bioepis e Bio-Manguinhos/Fiocruz.

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