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26/05/2021
Fórum de Saúde Brasil: Redução da dependência externa na produção de vacinas passa por política de Estado

Veículos: O Globo e Valor Econômico

Jornalistas: Cássia Almeida e Letícia Helena*

Falta articulação entre governo, institutos de pesquisa, universidades e setores privado e público de saúde para fazer o país diminuir a dependência externa de insumos estratégicos, como os de remédios e vacinas, e entrar no mundo da pesquisa avançada. Expertise há, tanto de cientistas como no sistema público de saúde, garantem pesquisadores e executivos do setor que participaram do último debate do Fórum de Saúde Brasil. 

Com o tema “A falta de insumos e a dependência externa para a produção de vacinas”, o evento foi promovido na última segunda-feira pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico e pela revista Época.

VÍDEO: Veja a íntegra do vídeo da Mesa 2

A vacinação está lenta no Brasil pela falta de insumos da China. O presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina), Antonio Carlos Bezerra, lembrou que, entre os anos 1980 e 1990, o Brasil “escancarou as portas para a concorrência internacional, sem ter feito o dever de casa”:

— O resultado foi um déficit brutal (na balança comercial do setor), e isso de alguma maneira se pereniza, com patamar alto de importação de farmoquímicos e até de farmacêuticos terminados, com mais valor agregado. Precisamos de uma política de Estado que olhe esse segmento de uma maneira estratégica. Temos levado isso ao governo — afirmou Bezerra.

Segundo o presidente executivo da Abifina, esses temas vêm sendo tratados no GT-Farma, grupo de trabalho criado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia que reúne os setores público e privado. Ele lembrou que até a Índia, um dos maiores players no setor de medicamentos, está construindo três polos de pesquisa e produção para diminuir a vulnerabilidade em relação à China.

Revolução 4.0

O professor Celio Hiratuka, diretor associado do Instituto de Economia da Unicamp, lembrou ainda que o Brasil tem que enfrentar um outro complicador: a revolução 4.0 da indústria.

— Ao mesmo tempo em que temos o desafio enorme de recuperar as cadeias produtivas locais e eliminar a dependência produtiva e tecnológica de uma série de cadeias, inclusive da farmacêutica e de vacinas, temos que entrar nessa revolução 4.0 para não ficarmos mais para trás. Para reduzir a nossa vulnerabilidade, que ficou tão evidente com a pandemia, é preciso uma política de Estado, que envolva também setor privado, institutos de pesquisa e universidades — comentou Hiratuka.

Na opinião do presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini, a questão não é de incentivo fiscal, mas de políticas estruturantes, como usar o poder de compra do Estado para incentivar a indústria local.

— Todos os países desenvolvidos do mundo usaram o poder de compra do Estado para manter suas indústrias funcionando. Infelizmente, no Brasil, nós esquecemos da industrialização. E não existe país desenvolvido sem uma indústria de base forte — afirmou Mussolini. — A gente precisaria usar essa pandemia para mudar o curso da nossa história futura.

Interação que dá retorno

O pesquisador da Fiocruz Ricardo Gazzinelli, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), chamou atenção para o papel fundamental das universidades na descoberta de vacinas em outros países:

— Aqui falta infraestrutura para criação dos protótipos. Normalmente, a indústria prefere investir num produto mais acabado. O investimento pode vir do governo ou do setor privado, para criar essa interação entre indústria e universidade.

Gazzinelli estimou que, para se fazer um protótipo de vacina, seria necessário um investimento em torno de R$ 1 bilhão, incluindo a instalação da estrutura para produção. A partir daí, porém, a instalação estaria apta a produzir vacinas de diversos tipos, garantindo a autossuficiência do país na imunização da população em determinadas doenças. Em outra frente, o pesquisador calculou que um laboratório-piloto para a produção de IFAs custe algo entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões.

— Um único IFA comprado nos Estados Unidos custa R$ 10 milhões. Produzindo três ou quatro no Brasil, o investimento seria pago.

*Especial para O GLOBO

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