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05/09/2021
Maurízio Billi: Negociação para produzir vacina da Pfizer contra Covid no Brasil foi rápida 

Veículo: Folha de S.Paulo, coluna Painel S.A.

Colunista: Joana Cunha

A parceria da dupla Pfizer e BioNTech com a brasileira Eurofarma para a produção da vacina contra a Covid no Brasil, anunciada no fim de agosto, foi um acordo fechado em poucos meses, mas resultado de um relacionamento de décadas, segundo Maurizio Billi, presidente da Eurofarma.

A relação vem desde os primórdios da farmacêutica brasileira, quando ela fazia terceirização para a Pfizer. O modelo fechado agora é semelhante, com um contrato simples e valor financeiro baixo para a Eurofarma, segundo o empresário, que vê potenciais ganhos de imagem.

“Isso invariavelmente te abre outras portas. E no futuro gostaríamos de nos associar a alguma empresa que possa nos fornecer a tecnologia de fabricação das vacinas. Com certeza, fazer no Brasil desde o ponto zero”, diz.

Como foi a negociação com a Pfizer e quanto tempo durou?
Maurizio Billi - Foi uma negociação super rápida porque já nos conhecíamos há anos. No começo da nossa empresa, éramos uma terceirizadora. Naquela época não tinha esse conceito de terceirização. Fomos os primeiros. Fazíamos produtos para outras empresas, entre as quais a Pfizer. É um relacionamento de décadas. E embora nos últimos anos não tenhamos fabricado mais nada para eles, estávamos muito em contato a respeito das PDPs (Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo) que o governo queria fazer na parte dos anticorpos monoclonais, que depois não deram muito certo.

De qualquer forma, sempre mantivemos contato e eles me telefonaram em junho perguntando se teríamos condição de fazer a vacina. E em um prazo recorde para uma companhia do tamanho da deles, eles vieram, olharam a fábrica, fizeram uma auditoria, uma inspeção, aprovaram, fomos para um contrato muito simples e foi tudo aprovado. Nos próximos meses devemos começar os testes.

O caso da União Química, que ficou tanto tempo anunciando a parceria com a Sputnik, não virou. Qual é a diferença?
Maurizio Billi - A diferença é uma empresa como a Pfizer. Eles se mexem só quando têm certeza de ter um bom produto. É reconhecida mundialmente. Uma das maiores farmacêuticas do mundo. Tem as melhores pessoas trabalhando, agiram rapidamente, têm muita credibilidade. Não é uma empresa que ninguém nunca ouviu falar.

Qual vai ser o resultado disso? Vai ter transferência de tecnologia? Quando esse acordo acabar, a Eurofarma vai dominar alguma tecnologia e poder usá-la adiante?
Maurizio Billi - Não. O que estamos fazendo hoje é a mesma coisa que faz o Butantan e a Fiocruz. Eles recebem a vacina pronta e vamos fazer a última etapa da formulação, o enchimento em frascos e a embalagem final. Não existe uma cessão de tecnologia.

O que a Eurofarma ganha no horizonte desse projeto para além do negócio imediato?
Maurizio Billi - Os ganhos em imagem são o melhor ponto. É muito importante para uma empresa nacional ter um acordo com uma empresa do tamanho da Pfizer. Invariavelmente, abre portas. E no futuro, gostaríamos de nos associar a alguma empresa que possa fornecer a tecnologia de fabricação das vacinas. Com certeza, fazer no Brasil desde o ponto zero.

Vocês revelam quanto a Eurofarma vai ganhar ou percentual?
Maurizio Billi - Não vou abrir os valores, mas posso dizer que é uma simples operação industrial. É o fornecimento das nossas instalações , mão de obra e tudo para fazer o produto. É um serviço de terceirização. O valor envolvido para nós é baixo. O que queremos mesmo é esse ganho de imagem, que tem um valor muito alto. Mas o valor financeiro do negócio é extremamente baixo. Só vamos fabricar. Quem vai vender é a Pfizer, como vende hoje.

Esse aumento da produção nacional abre portas para a venda de vacinas à iniciativa privada, que se falou tanto mas ficou de lado?
Maurizio Billi - Eu tenho certeza absoluta. Nessa primeira leva, ficaria até injusto as vacinas privadas, porque separaria muito os ricos dos pobres. Então, acho que fizeram direito no primeiro ano. Depois disso, essa vacina vai ser mais ou menos como a da gripe. Hoje, as empresas compram a vacina da gripe para distribuir para os colaboradores. Acho que vai ser a mesma coisa. É um futuro a médio prazo, assim que passar toda essa indefinição. Provavelmente teremos de tomar a vacina durante alguns anos.

Vocês tiveram parceria no caso da Orygen [união entre farmacêuticas que foi criada em 2012 para produzir medicamentos biossimilares]?
Maurizio Billi - Exato. Nos aproximamos muito com esse contato da Orygen. Eles conheciam a nossa fábrica também por causa disso. A Orygen se baseava nas parcerias público-privadas do governo. E esse assunto está muito parado, enrolado. Não tenho muita certeza se esse negócio vai andar para a frente.

Era para fazer a produção de biossimilares?
Maurizio Billi - Exatamente. A Pfizer tem uma linha de biossimilares maravilhosa e gostaria de nos passar através da Orygen. Mas o problema é que o governo precisa assinar as parcerias e são coisas que não andam. Os processos governamentais andam no próprio ritmo deles.

A Eurofarma pretende elevar o investimento em inovação?
Maurizio Billi - Somos hoje a farmacêutica que mais investe em inovação dentre as latino-americanas. Estamos procurando inovar não só na parte de genéricos mas também em incrementais e radicais. Inauguramos um centro de inovação com mais de 400 cientistas que procuram novos produtos.

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