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01/10/2021
Eles têm a cura para a ineficiência da saúde

Veículo: IstoÉ Dinheiro

Jornalista: Hugo Cilo

Uma das características marcantes da cultura suíça é a neutralidade. O país não participa de guerras desde 1815, quando a então Confederação Helvética se declarou território neutro no Congresso de Viena. A decisão de seguir em frente, sem imitar os vizinhos ou tomar partido em conflitos, deu origem ao ditado popular “Esperta é a Suíça, que não paga para ver e é paga para não ver”. O pragmatismo e a indiferença, além de gerar riqueza ao país, influenciam no estilo de vida da população e, principalmente, na gestão das empresas. Elas não costumam fazer manobras bruscas, se arriscam pouco e tomam decisões ortodoxas e minuciosamente calculadas. Tudo para reduzir riscos.

Nem todas as empresas suíças, no entanto, seguem a cartilha da neutralidade, nem ficam em cima do muro. A operação brasileira da Roche, sob comando do executivo suíço Patrick Eckert desde 2018, tomou uma posição firme: mudar toda sua estrutura no País e levantar a bandeira da eficiência no Sistema Público de Saúde (SUS). Atualmente, nem sequer endereço a empresa tem. O antigo prédio no bairro paulistano do Jaguaré, onde a companhia dona das marcas Rivotril, Roacutan e Lexotan funcionou por 50 anos, foi fechado. Uma nova sede, em construção na Avenida Nações Unidas, deve ser inaugurada em 2022, quando a Roche vai completar 90 anos de presença no Brasil. “Decidimos por uma reviravolta para transformar a empresa internamente e, mais ainda, por fora”, disse Eckert. “Tudo vai mudar.” 

Curiosamente, esse cavalo-de-pau da Roche no País é uma fórmula caseira, desenhada por Eckert para o mercado local, o oitavo no ranking dos 130 países em que a companhia atua. Globalmente, a Roche, maior empresa de biotecnologia do mundo, registrou faturamento de US$ 62,3 bilhões (58,3 bilhões de francos suíços) no ano passado e lidera em segmentos como diabetes, oncologia e doenças de alta complexidade. Os resultados da Roche no Brasil vêm do segmento farma (77%), diagnóstica (16%) e diabetes (7%). Segundo o economista Sergio Hoffman, consultor e especialista em gestão pública pela Fundação Getulio Vargas (FGV), o ambiente favorece a Roche. “O cenário de pandemia e de aumento das atenções à saúde preventiva criam o clima perfeito para a expansão dos negócios das multinacionais do setor de saúde”, afirmou.

Entre as principais mudanças da Roche no Brasil está o organograma. Sob o plano chamado de One Roche, quase 20 cargos em todos os níveis hierárquicos foram extintos nas três divisões (farma, diagnóstica e diabetes). Os cerca de 1,3 mil representantes de vendas, supervisores, gerentes regionais e diretores se tornaram PJPs (sigla para Patient Journey Partners) e HSPs (Healthcare Ecosystem Partner). Sobrou até para o alto escalão. O comitê executivo, por exemplo, passou a se chamar Brazilian Enabler Team, ou Time de Facilitadores Brasileiros — cargo que até Eckert adotou em seu perfil do LinkedIn.

Numa linguagem mais simples, a empresa identificou sinergias para promover antigos funcionários a consultores da jornada de vida dos pacientes. Os 14 representantes da empresa que faziam expedientes no hospital Sírio-Libanês, por exemplo, foram para as ruas acompanhar pacientes e médicos. No Sírio, apenas um representante continua. “A Roche é a empresa que mais reinveste em pesquisa e inovação no mundo, um porcentual com 20% de toda a receita, mas estávamos presos a um modelo de operação muito conservador, característico da indústria farmacêutica”, afirmou o presidente. “Agora, todos são responsáveis por fazer de tudo, buscando soluções para melhorar o relacionamento com médicos, com clínicas e com todos os parceiros que atuam diretamente junto ao paciente”, disse Eckert.

Dados 

Uma das mais ousadas iniciativas da Roche no País — talvez a mais disruptiva delas — é a criação de uma divisão de tecnologia e análise de dados. Ou seja, mais do que uma fabricante de medicamentos, a Roche caminha para ser uma empresa de tecnologia. Arquitetada e dirigida pela executiva Gabriela Spencer Magrin, a Data & Analytics Solution Organization (Daso) foi criada pela Roche Farma para ser uma grande plataforma de informações e histórico de saúde de seus pacientes. A Daso, basicamente, organiza o fluxo de informação dentro da companhia, faz a integração das informações do Brasil com dados globais e garante que todas as normas vigentes sejam seguidas inclusive sob as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Quem tem diabetes, hipertensão ou antecedente de câncer na família não precisará, com a nova tecnologia da Roche, descrever todo o histórico de saúde em cada nova consulta médica. “O Brasil perde muito tempo e dinheiro com a administração ineficiente da gestão dos dados dos pacientes”, disse Paulo Barbosa, presidente da Roche Diabetes no Brasil. “Integrada a um prontuário eletrônico único, nossa tecnologia reduz em mais de 30% a evolução para casos mais graves da doença”, afirmou. Atualmente, municípios paulistas como São Paulo, Caieiras, Santana de Parnaíba, Guarujá e a capital paranaense Curitiba já utilizam a plataforma da Roche para monitorar e administrar o atendimento a seus pacientes na rede pública. “A Daso vai atuar como catalisadora e potencializadora de parcerias de dados com parceiros comerciais, universidades, startups, entidades governamentais, empresas de tecnologia e associações, para apoiar e ajudar a melhorar o sistema de saúde brasileiro.” 

É aí que entra a galinha dos ovos de ouro da indústria de medicamentos, o Sistema Único de Saúde (SUS). A empresa quer mais do que dobrar, em cinco anos, os atuais 26% de suas receitas no Brasil com vendas para o SUS. Assim, a fatia de 74% para o mercado privado deve perder espaço. Parte desse aumento, segundo Eckert, se dará pela expansão das vendas de novos medicamentos e de novas tecnologias. Se o plano da Roche der certo, estados e municípios poderão adotar a plataforma de dados para gerenciar melhor a prescrição de medicamentos, a frequência de exames e, principalmente, atuar no diagnóstico precoce e na prevenção de doenças, em vez de apenas combater os efeitos deles.

Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), apenas 48,1 milhões dos 213 milhões de brasileiros têm acesso a planos médicos privados. Como 70% da população depende do SUS, a Roche enxerga tanto a oportunidade de crescimento neste mercado quanto a responsabilidade de garantir que todos os pacientes tenham acesso às tecnologias mais adequadas para suas necessidades médicas. “Estamos comprometidos em trabalhar com o governo e com todo o ecossistema de saúde brasileiro, entre eles sociedades médicas, órgãos regulatórios, instituições privadas, associações de pacientes e indústria farmacêutica para mudar essa realidade”, afirmou Eckert.

Parte do crescimento da Roche no Brasil virá por meio de aquisições, principalmente no segmento de análises clínicas. A companhia transferiu, em 1º de outubro, o português Carlos Martins para comandar a operação brasileira da Roche Diagnóstica, divisão de equipamentos e serviços para exames médicos. Nos últimos anos, o executivo liderou a empresa na América Central e Caribe. Agora, sua missão é ampliar a parceria da Roche com o SUS, que processa mais de 1,6 milhão de exames por dia em todo o País, e expandir a presença da empresa, pioneira em testes de Covid, com a aquisição de laboratórios regionais e a digitalização dos exames. “Durante a pandemia, o diagnóstico mostrou seu valor”, disse Martins. “A identificação da doença é onde tudo começa”.

Para ele, diagnosticar mais significa internar menos. Essa matemática é a fórmula mais inovadora para reduzir custos e ampliar o acesso à saúde. Tanto pela divisão de medicamentos, quanto pelas áreas de diabetes ou diagnóstica, a química da Roche no Brasil é o crescimento.

“Podemos ter zero desperdício de recursos públicos”, diz Patrick Eckert

A transformação da Roche foi acelerada na pandemia ou está ocorrendo por causa dela?
Patrick Eckert - As duas coisas. Já vínhamos, desde 2019, promovendo ajustes na companhia. A pandemia acelerou tudo. Questionamos o modelo tradicional da nossa indústria e a forma como a gente interage com os clientes. Aquela estrutura de ter representantes de vendas vai acabar. Esse modelo não é sustentável. Primeiro, porque cada vez mais representantes estavam visitando clínicas, dando muito foco ao médico e muito pouco ao paciente.

As mudanças deram resultados?
Patrick Eckert - A transformação está em curso, mas nossos resultados têm sido muito bons. No ano passado, a divisão de farma registrou faturamento de R$ 3,4 bilhões. O grupo teve R$ 4,3 bilhões. Fomos puxados a inovar até em áreas novas. Posso dar o exemplo da parceria que fizemos com a Tellus, que nos chamou para criar uma plataforma para administrar para o governo do Estado de São Paulo todas as doações na pandemia. Isso é algo muito diferente do que fazemos, mas é um exemplo de um algo totalmente novo que podemos contribuir com a gestão pública.

Qual será o legado da pandemia? 
Patrick Eckert - O legado será a eficiência, não só para a Roche, mas para toda a indústria. Com tudo isso que está acontecendo, criou-se uma necessidade muito maior de buscar eficiência. Temos condições de facilitar todo o processo de gestão. A pandemia vai forçar a gestão da saúde a ser muito eficiente. Porque podemos ter zero desperdício de recursos públicos ou de pagadores privados.

As parcerias são focadas no SUS? 
Patrick Eckert - Pelo grande número de pacientes atendidos pelo SUS, obviamente temos atenção especial em parcerias com a saúde pública. Do nosso resultado de farma, hoje 40% vem do setor público e 60% do setor privado. Temos potencial de inverter esse porcentual com o aumento das parcerias que temos com estados e municípios. Temos exemplos bem-sucedidos como a que fizemos com a Prefeitura de Cotia. Um piloto. Agora, queremos escalar isso para o restante do País. Esse é o caminho.

Aumentar as parcerias com o SUS não aumentará a exposição da Roche a casos de corrupção? 
Patrick Eckert - Para a Roche, o compliance está acima de tudo. Quando a gente entra em negociações e discussões, é sempre da forma mais transparente possível. Sempre colocamos todas as cartas na mesa. Agora, realmente está acontecendo certa paralisia do sistema por tudo que a gente vem vivenciando com a CPI. Mas inclusive nessa questão da transparência as tecnologias ajudam. Ao trazer para uma plataforma todos os dados, podemos ser mais assertivos no diagnóstico e no tratamento. O gasto será muito menor. Isso porque há mais previsibilidade.

Então a pandemia e a CPI serão positivas para a gestão...
Patrick Eckert - Minha resposta é sim. O que precisamos evitar é que tudo isso crie algum tipo de medo permanente nas empresas. É só seguir pelo caminho correto, ter acordos abertos e transparentes.Temos que destravar as negociações com o governo e com os pagadores privados. No fim das contas, o maior beneficiado é o paciente. E não vamos deixar nenhum paciente para trás.

 

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