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07/10/2021
Em evento histórico, primeira vacina contra malária é aprovada pela OMS

Veículo: Folha de S.Paulo

Jornalista: Apoorva Mandavilli, do The New York Times

A OMS (Organização Mundial da Saúde) aprovou nesta quarta-feira (6) a primeira vacina contra malária. A decisão abre espaço para uma ferramenta que poderá salvar a vida de dezenas de milhares de crianças na África por ano.

A malária é uma das doenças infecciosas mais mortais e há mais tempo conhecidas. Ela mata cerca de 500 mil pessoas por ano, quase todas na África subsaariana —entre elas 260 mil crianças com menos de cinco anos.

A nova vacina, feita pelo laboratório GlaxoSmithKline, estimula o sistema imune das crianças a barrar o Plasmodium falciparum, o mais mortal dos cinco patógenos da malária e o predominante na África. A vacina em questão não é apenas a primeira contra a malária, é também a primeira desenvolvida para doenças parasitárias em geral.

Em testes clínicos, a vacina atingiu uma eficácia de aproximadamente 50% contra a malária grave no primeiro ano, mas caiu para perto de zero no quarto ano. Os ensaios não mediram o impacto da vacina para evitar mortes, o que levou alguns especialistas a questionarem se é um investimento válido em países com outros inúmeros problemas difíceis de lidar.

Mas a malária grave representa quase metade das mortes pela doença, e é considerada “um indicador confiável de mortalidade”, disse Mary Hamel, chefe do programa de implementação de vacinas contra malária da OMS. “Espero que vejamos esse impacto.” 

Um estudo de modelagem feito no ano passado estimou que, se a vacina fosse aplicada em países com maior incidência de malária, poderia evitar 5,4 milhões de casos e 23 mil mortes por ano de crianças com menos de cinco anos.

Além disso, um teste recente da vacina em combinação com medicamentos preventivos dados a crianças durante temporadas de alta transmissibilidade concluiu que a abordagem dupla foi muito mais eficaz para evitar a doença severa, a hospitalização e a morte do que o uso desses métodos separadamente.

Dispor de uma vacina segura contra a malária, moderadamente eficaz e pronta para a distribuição é um “evento histórico”, disse Pedro Alonso, diretor do programa global de malária da OMS.

Os protozoários são muito mais complexos que os vírus ou as bactérias, e a busca por uma vacina contra a malária ocorria há cem anos, acrescentou ele. “É um salto enorme da perspectiva da ciência ter uma vacina de primeira geração contra um protozoário humano”, disse Alonso.

O parasito da malária (em português, o causador da enfermidade também é chamado dessa forma) é um inimigo especialmente insidioso, porque pode atacar a mesma pessoa diversas vezes. Em muitas partes da África subsaariana, mesmo naquelas onde a maioria das pessoas dorme sob telas contra insetos que contêm inseticida, as crianças têm em média seis episódios de malária por ano.

Mesmo quando a doença não é fatal, o ataque recorrente a seus corpos pode deixá-los fracos e vulneráveis a outros patógenos, alterando permanentemente o sistema imune.

A história das pesquisas sobre a malária está cheia de vacinas candidatas que nunca passaram por testes clínicos. Enquanto isso, telas contra mosquitos instaladas nas camas, a medida preventiva mais comum, reduzem as mortes por malária de crianças de menos de cinco anos em apenas cerca de 20%.

Diante desse cenário, a nova vacina, mesmo com eficácia modesta, é o maior avanço na luta contra a doença em décadas, dizem especialistas.

“O progresso contra a malária realmente estagnou nos últimos cinco ou seis anos, especialmente em alguns dos países mais atingidos do mundo”, afirmou Ashley Birkett, que chefia programas de malária na organização sem fins lucrativos Path, focada em saúde global. Com a nova vacina, “há potencial para um impacto muito significativo”.

Chamada Mosquirix, a nova vacina é aplicada em três doses para crianças entre 5 e 17 meses. Há ainda uma quarta dose aproximadamente 18 meses depois. Após os ensaios clínicos, a vacina foi usada de maneira experimental em três países —Quênia, Maláui e Gana—, nos quais foi incorporada aos programas de vacinação.

Mais de 2,3 milhões de doses foram administradas nesses países, alcançando mais de 800 mil crianças. Isso ampliou a porcentagem de crianças protegidas de alguma maneira contra a malária de menos de 70% para mais de 90%, disse Hamel.

“A capacidade de reduzir as desigualdades no acesso à prevenção da malária é importante”, disse Hamel. Foi impressionante ver que isso poderia alcançar crianças que atualmente não são protegidas.” 

A implantação de um sistema eficaz de distribuição de telas para camas contendo inseticida às famílias levou anos para acontecer. Em compensação, inserir a Mosquirix como parte da imunização de rotina foi algo surpreendentemente fácil em termos de distribuição, acrescentou Hamel —ainda que no meio da pandemia de coronavírus, que provocou lockdowns e interrompeu as cadeias de distribuição. “Não vamos ter de passar uma década tentando descobrir como levá-la às crianças”, disse ele.

Nesta semana, um grupo de trabalho de especialistas independentes em malária, epidemiologia infantil e estatística, assim como o grupo assessor de vacinas da OMS, se reuniu para analisar os dados de programas piloto e fazer então suas recomendações formais a Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

O próximo passo é a Gavi, aliança global de vacinas, determinar que a vacina é um investimento válido. Se o conselho da organização aprovar a Mosquirix —o que não é garantido, já que sua eficácia é moderada e há muitas prioridades concorrentes—, a Gavi vai comprar a vacina para os países que solicitarem, processo que deverá levar pelo menos um ano.

Mas, assim como ocorre com a Covid-19, os problemas na produção e na distribuição da vacina poderão atrasar consideravelmente esse progresso. E a pandemia também desviou recursos e atenção de outras doenças, disse Deepali Patel, chefe de programas de vacinas na Gavi.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

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