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20/05/2022
A ciência brasileira da Bayer

Veículo: IstoÉ Dinheiro

Jornalista: Hugo Cilo

Nos últimos dois anos, a subsidiária brasileira da Bayer Farma trabalhou como nunca. Literalmente, como nunca. Em vez de pesquisar, desenvolver, produzir e vender medicamentos — como faz há 130 anos no mundo e há 125 anos no Brasil —, a empresa atacou de concierge da saúde. Fez parceria com a Uber, se uniu a startups de telemedicina, assinou acordos com grandes grupos de hospitais e laboratórios. Pagou deslocamento, agendou consultas presenciais e remotas, levou médicos até a casa de pacientes. Fortaleceu convênios de estudo com mais de 50 universidades e centros de pesquisa em todo o País. Atuou quase como um médico da família. Tudo porque, durante o isolamento social e diante do caos imposto aos sistemas público e privado de saúde na pandemia, milhões de brasileiros deixaram para depois os tradicionais check-ups de rotina. Com hospitais lotados, as consultas e os exames teoricamente menos urgentes, como em cardiologia, ginecologia, oftalmo e tratamento de câncer, foram postergados. As UTIs lotadas, vacinas a conta-gotas e a proliferação da desinformação mais do que justificavam esse comportamento defensivo dos pacientes.

Sejam no consultório, nos balcões das farmácias, nos laboratórios ou nos hospitais, os diagnósticos tardios criaram desafios para a Bayer e todo setor de saúde, segundo o presidente da companhia na América Latina, Adib Jacob. O executivo comandou uma contraofensiva de guerra para garantir que doenças não diretamente relacionadas à Covid-19 continuassem a ser tratadas. Diabetes, hipertensão, saúde da mulher, entre outras frentes de prevenção, se tornaram prioridade para a Bayer. A estratégia, além de evitar uma pandemia de outros problemas aos pacientes, ajudou a preservar a saúde financeira da própria empresa.

Puxada por vendas de cerca de R$ 2 bilhões no Brasil em 2021, uma alta de “dois dígitos” (a empresa não divulga o crescimento porcentual exato por país), a América Latina foi a região que mais cresceu dentro da companhia em todo o mundo. O faturamento de 922 milhões de euros na região representou uma alta de 15,2% sobre o ano anterior. O desempenho financeiro do Brasil só não foi melhor porque a desvalorização de quase 40% do real frente ao dólar entre 2020 e 2021 prejudicou a última linha do balanço. Não fosse a questão cambial, as vendas do Brasil teriam se aproximado de 20% de crescimento no ano. Globalmente, o faturamento de 18,3 bilhões de euros ficou 8,9% acima do resultado de 2020.

“O Brasil se tornou um grande laboratório de iniciativas, inovação e aprendizados para a Bayer no mundo”, afirmou Jacob à DINHEIRO, durante a divulgação dos resultados, em Buenos Aires. “Depois de superar os problemas iniciais de combate à pandemia, a grande capacidade de reação do SUS e das empresas privadas de saúde mostrou que o País pode ser um cluster de exportação de exemplos no diagnóstico e no combate a doenças.”

Transformar o Brasil em um polo global da Bayer passa pela aceleração de novos medicamentos. Depois de 14 produtos trazifos para o mercado brasileiro em 2021, haverá 36 lançamentos até o final deste ano. O objetivo, segundo Jacob, é fazer com que as vendas para o SUS dobrem dos atuais 20% (algo próximo a R$ 150 milhões) para 40% dentro de cinco anos. “O SUS, como maior sistema público de saúde do mundo, tem um imenso potencial de crescimento”, disse o CEO da Bayer. “Com 50 milhões de pessoas com planos de saúde e mais de 150 milhões no sistema público, o Brasil é mais do que uma Itália ou uma Espanha em potencial de crescimento e geração de negócios”, afirmou. Até o final do ano, a meta da Bayer Brasil é ter 50% das suas vendas vindas desse mercado institucional — incluindo planos de saúde e SUS. A outra metade das receitas dependerá do desempenho das farmácias e drogarias.

Dentro de um investimento de R$ 400 milhões por ano para pesquisa, desenvolvimento e lançamentos, a Bayer aposta na ciência de seus novos medicamentos para aumentar a eficiência de tratamentos e reduzir custos. Entre as novidades, os protagonistas são a Finerenona (para diabetes e doenças renais), a Vericiguat (insuficiência cardíaca), a Darolutamida (câncer de próstata), os medicamentos para hemofilia e a Larotrectinibe (que atua na genética do tumor com metástase, “desligando” as moléculas do câncer). Este último, chamado comercialmente de Vitrakvi, é o primeiro inibidor genômico para o tratamento de câncer, independentemente da idade do paciente e tipo de tumor. Trata-se do primeiro tratamento agnóstico aprovado no Brasil.

Para Jacob, a incorporação de medicamentos de última tecnologiano rol da Agência Nacional de Saúde (ANS) e no portfolio do SUS vai garantir mais acesso a tratamentos eficazes e redução significativa das despesas com a jornada dos pacientes, desde diabetes e degeneração ocular até tratamentos mais complexos e que exigem atenção redobrada, como câncer e hemofilia. “Desenvolvemos um medicamento para hemofilia, já aprovado pelo SUS, que reduziria em mais de R$ 100 milhões por ano as despesas do governo com esse tratamento, que hoje passam de R$ 1 bilhão”, disse o CEO. “Com uma gestão de excelência na saúde pública, não tenho dúvidas de que vamos entrar em um ciclo de crescimento dinâmico nos próximos anos.”

Aumentar a participação do SUS nos negócios da operação brasileira será um desafio complexo para a Bayer diante dos recentes cortes nos repasses. O orçamento para 2022 do Ministério da Saúde — o principal financiador do SUS — sofreu redução de 20%, passando dos R$ 200,6 bilhões, de 2021, para os atuais R$ 160,4 bilhões, conforme dados da Pasta. Nos dois primeiros anos de pandemia, as despesas extraordinárias da Saúde foram turbinadas com a aprovação de decretos de calamidade pública, que flexibilizaram o teto de gastos. Foram esses recursos que garantiram, por exemplo, a compra de vacinas. As verbas de urgência não serão tão generosas neste ano, o que poderá deteriorar a qualidade dos serviços.

O argumento da Bayer, no entanto, é que para fazer mais com menos o SUS terá de investir em medicamentos mais modernos e eficazes. Pelos cálculos da Secretaria do Tesouro Nacional, órgão do Ministério da Economia, o aumento da longevidade dos brasileiros vai exigir do SUS um aumento de R$ 50,7 bilhões em saúde até 2027. “Mesmo diante de um cenário desafiador, mais pacientes precisarão de acesso a tratamentos modernos, procedimentos eficazes e medicamentos de última geração”, afirmou Jacob. “Se saúde é direito de todos e dever do Estado, é também a maior missão para a Bayer.”


ENTREVISTA: Adib Jacob, presidente da Bayer Farma Brasil e América Latina
“O SUS equivale a uma Espanha ou uma Itália, com potencial de bilhões em novos negócios”

Qual é o maior desafio da Bayer Farma no Brasil?
Adib Jacob - O desafio é sempre rejuvenescer uma companhia centenária, trazendo inovações para o tratamento de doenças e dando mais acesso a produtos que garantem qualidade de vida. No segmento de saúde feminina, por exemplo, já somos líderes e queremos estar ainda mais consolidados na preferência das mulheres. Investimos R$ 500 milhões só em DIUs [dispositivos intrauterinos] nos últimos anos e contratamos artistas como Bruna Marquezine, Ludmilla e Thais Araújo para ajudar nas campanhas de orientação à gravidez não planejada. Mais do que um medicamento, isso é uma iniciativa ligada à qualidade de vida, compromisso social e saúde pública.

A estratégia de ampliar a participação do SUS nos resultados da Bayer não compromete a margem de lucro?
Adib Jacob - Sem dúvida praticamos com o SUS um dos preços mais baixos do mundo. Mas como são contratos com grande potencial de escala, o retorno dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento vem no volume. É um jogo de ganha-ganha. Só que não se trata apenas de números. Quando vemos resultados extremamente positivos com a ampliação do uso de nossos medicamentos em saúde da mulher, cardiologia, oncologia, diabetes ou oftalmologia, por exemplo, novas oportunidades se abrem em outras frentes de atuação também. Com 50 milhões de brasileiros em planos de saúde e mais de 150 milhões no sistema público, para nós o aumento da capacidade de atendimento do SUS equivale a uma Espanha ou uma Itália, com potencial de bilhões em novos negócios.

Por que o Brasil e a América Latina crescem acima da média mundial para a Bayer?
Adib Jacob - Os mercados mais maduros, como Estados Unidos e Europa, têm estruturas de cobertura mais consolidadas. Embora o SUS seja o maior sistema público do mundo, há muito a se fazer. Ao incorporar exames e medicamentos biológicos, imunoterapias e terapias gênicas, além de muitos outros procedimentos de vanguarda, a gestão da saúde dará um salto importante nos próximos anos.

Como estar mais próximo do SUS sem colocar em risco o compliance da companhia?
Adib Jacob - O compliance é inegociável na Bayer. Nossos contratos públicos passam por rigorosas avaliações internas e externas, sob os critérios da cartilha de transparência do grupo no mundo. Vender mais para o SUS não representa qualquer mudança no nosso comportamento. O que for bom para o SUS, será bom para a Bayer e, principalmente, para a população.

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