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07/07/2015
As 100 Empresas Mais Inovadoras: A busca do novo é constante
Veículo: Anuário Inovação Brasil - Valor Econômico

Jornalista: Margarida O. Pfeifer


 
A Indústria farmacêutica é o se­tor que mais prioriza a inova­ção no Brasil. Os números da pesquisa feita pela Strategy& [do grupo PwC] em conjunto com o Valor revela que 83% das companhias farmacêuticas têm cultu­ra de inovação, quesito que aparece como principal estratégia do negócio em dois terços das empresas pesquisadas, sendo que as demais colocam a inovação entre as três ou cinco prioridades da companhia. É o segmento que mais investe em práticas inovadoras. Todas as farmacêuticas decla­raram investir mais de 5% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento (P&D).
 
Outros resultados da pesquisa reforçam a importância das políticas de inovação para o setor: a totalidade das empresas tem gerência aberta a novas ideias; dois terços formaram parcerias com institui­ções de pesquisa, universidades, ONGs, entre outras, para desenvolver P&D; todas possuem equipes exclusivas de P&D/Inovação, sendo que em metade delas essas equipes respondem diretamente ao cargo mais alto da empresa.
 
"A indústria farmacêutica é um setor que depende de inovação em grau bastan­te elevado, muito mais do que outros", afir­ma Fernando Fernandes, consultor e sócio da Strategy&. Esta condição está ligada à natureza do que essas companhias fazem. "O principal produto de qualquer indús­tria farmacêutica que não seja de genéricos é inovação. E arrisco dizer que mesmo as que produzem genéricos têm inovação, porque essa ação não se restringe apenas a produto novo, mas também a processos e estruturas", afirma.
 
Primeira colocada no ranking setorial, a Novartis tem na inovação um dos seus pila­res estratégicos fundamentais, segundo José Antônio Vieira, presidente da companhia no Brasil. "Nosso foco principal de investi­mento é no desenvolvimento de estudos clínicos, área em que somos líderes no país, de acordo com levantamento da consulto­ria Cortellis Trials Inteligence-Thompson Reuters. Isso mostra como é expressiva a participação do Brasil no grupo", diz.
 
Nos últimos três anos, a Novartis apli­cou no país R$ 170 milhões, propiciando atendimento a mais de 25 mil pacientes por meio de 460 pesquisas clínicas. Com receita anual de RS 3,3 bilhões, a empresa no Brasil emprega três mil pessoas, 300 de­las dedicadas exclusivamente a projetos de inovação. O grupo Novartis, com sede na Suíça e faturamento anual de US$ 58 bilhões, investiu USS 9,9 bilhões em P&D em 2014, posicionando-se entre as dez companhias mais inovadoras do mundo.
 
O pipeline da companhia conta com 34 novas moléculas patenteadas. Recen­temente, o grupo sofreu uma reestrutura­ção global e passou a focar em três áreas de negócios vistas como de grande potencial inovador e de crescimento: a Farma, de medicamentos nas áreas cardiovascular, respiratória, doenças infecciosas e oncologia; a Alcon, líder global de produtos oftalmológicos; e a Sandoz, de genéricos e biossimilares.
 
A Novartis Brasil conduz atualmente 200 estudos clínicos, dos quais 141 pro­jetos estão Ligados à divisão Farma. A em­presa não tem centro próprio de pesquisa no Brasil, mas desenvolveu parcerias com mais de 300 centros brasileiros. As prin­cipais conquistas da Novartis Brasil, além dos estudos clínicos, estão centradas na chamada inovação incrementai, já que a pesquisa radical, para transformar uma molécula em um remédio viável à saúde humana, está concentrada em Basiléia (Suí­ça), cidade-sede do grupo. Vieira destaca a criação do Cataflan Ice, spray gelado do anti-inflamatório que antes era apresen­tado apenas em pomada e gel. "Foi um de­senvolvimento feito no Brasil do início ao fim e incorporado pelo grupo no mundo", explica o presidente da farmacêutica.
 
Embora a Novartis venha apresentan­do crescimento sólido de dois dígitos nas vendas nos últimos anos, Vieira vê como grande desafio para a indústria farmacêu­tica brasileira tornar mais rápido o acesso dos pacientes a medicamentos inovadores. "Os lançamentos no Brasil têm um gap de dois anos em relação a outros países. São dois anos que o paciente fica sem acesso ao produto", afirma Vieira.
 
Esse é um gargalo importante, segundo Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farma­cêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma), já que a indústria farmacêutica brasileira depende mais da inovação em produtos realizada em outros países. "O setor no Brasil não é mais dominado por multinacionais, como foi tempos atrás. Hoje, as nacionais representam de 52% a 55% do mercado, principalmente devido ao grande crescimento do mercado de ge­néricos no país", observa Mussolini.
 
Em geral, são as multinacionais que tra­zem para o país os produtos mais inovado­res, desenvolvidos por suas matrizes. De acordo com o presidente do Sindusfarma, o mercado farmacêutico brasileiro não tem escala para ser um player internacional da inovação. "Temos apenas 4% do mercado mundial e importamos entre 90% e 95% dos insumos para a produção de medica­mentos da China, índia e países europeus, porque não temos uma indústria de quí­mica fina desenvolvida."
 
Mesmo assim, é um mercado robusto, integrado por 269 empresas, que realiza­ram vendas totais de quase RS 66 bilhões em 2014 e há mais de dez anos mantém um ritmo de crescimento anual médio acima dos 14%. Para Mussolini, o Brasil aprendeu a fazer remédio de qualidade. "O Brasil tem uma posição medíocre na descober­ta, desenvolvimento e patenteamento de novos medicamentos e desproporcional à qualidade da nossa ciência. Considerando a qualidade dos nossos cientistas, poderí­amos ser muito mais importantes nessa área", afirma Antônio Britto, presidente da Associação cia Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).
 
Diminuir o tempo de desenvolvimento da molécula até ela virar uma caixa de re­médio na farmácia é o grande desafio da indústria farmacêutica hoje, na opinião de Sandra Abrahão, diretora-médica da Bayer Brasil, segunda colocada no ranking seto­rial. "Uma empresa de medicamentos vive de produtos novos. Quanto mais diminuir esse prazo, maior o aumento da rentabili­dade do negócio." Outro gargalo impor­tante no Brasil para a prática de inovação, segundo a diretora da Bayer, é o tempo de aprovação para a realização das pesquisas clínicas. "No Brasil, esse processo demora um ano, enquanto no Canadá e Estados Unidos são apenas dois meses", compa­ra. No ano passado, a Bayer, segundo ela, perdeu o prazo para participar de estudos clínicos de três medicamentos, dois de oncologia e um para doença infecciosa, por atraso da Anvisa. "A indústria tem tido certa dificuldade de incluir o Brasil nas pesqui­sas", diz. Mesmo assim, o país é um dos qua­tro centros de farmacovigilância do grupo Bayer no mundo, com 150 profissionais, e responsável por 50% do fluxo de trabalho global do grupo.
 
Este ano, a Bayer planeja inversões de RS 213 milhões no Brasil em P&D/inova- ção, além de modernização em instala­ções e projetos socioambientais. A Bayer é líder no segmento de saúde da mulher. De sua fábrica de hormônios sólidos (pílulas e comprimidos), em São Paulo, saíram no ano passado dois bilhões de comprimi­dos para abastecer o mercado brasileiro e mais de 40 países da América Latina e Ásia. A empresa é responsável por cerca de 10% das exportações da indústria far­macêutica brasileira.
 
Única empresa 100% nacional entre as cinco primeiras do ranking, o Aché investiu no ano passado RS 58 milhões em P&D/ inovação. "Em 2015, vamos manter 10% da geração de caixa operacional em pesquisa, desenvolvimento e inovação", afirma Paulo Nigro, presidente do Aché. "Os resultados foram bons. Em 2014, lançamos 19 novos produtos e apresentações e no fim do ano obtivemos sete novos registros na Anvisa." O pipeline da empresa é formado por 184 projetos em desenvolvimento para os pró­ximos anos. Atualmente, a Aché possui 46 patentes no Brasil e no exterior, 15 delas já concedidas e 31 em análise.
 
Para ampliar seu horizonte comercial e de inovação, o Aché formou uma ampla cadeia de parceiros internacionais, que incluem a inglesa Oxford Pharmascience (suplementação alimentar), a canadense Prollenium Medicai Technologies (trata­mento estético), entre outras. As parcerias são uma via de mão dupla, como a realiza­da com a mexicana Silanes, que passou a comercializar no México os medicamentos do Aché, um deles o hipertensivo Lotar, pri­meira marca própria do laboratório bra­sileiro fora do país. Um resultado recente dessa política foi a chegada ao Brasil de dois probióticos indicados para o equilíbrio da microbiota intestinal e fruto da parceria com o laboratório sueco Biogaia.
 
"Temos duas linhas de inovação: a radi­cal, que desenvolve novos princípios ativos, na qual temos 15 projetos, e a incrementai, que traz para o país produtos já existentes no mundo e cria melhorias de ativos exis­tentes no país", afirma Nigro. O centro de pesquisa no Brasil mantém57 profissionais de diversas áreas envolvidos com inovação. Com a iminente vigência do novo marco legal que regula o acesso à biodiversidade brasileira para fins de pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico, aprovado este ano, a Aché vai retomar a avaliação de mais de 20 oportunidades de projetos.
 
Outra farmacêutica posicionada en­tre as cinco mais inovadoras é a Janssen, pertencente ao grupo Johnson &Johnson. Para focar cada vez mais em inovação, a companhia mudou a estratégia do negócio nos últimos anos, restringindo sua atua­ção a áreas em que há necessidades não preenchidas, segundo Luis Díaz-Rubio, presidente da Janssen Brasil.
 
"As áreas importantes para a compa­nhia hoje são oncologia, imunologia, do­enças infecciosas, sistema nervoso central, cardiologia e metabolismo", elenca. AJanssen, segundo ele, é a quinta companhia em número de pesquisas em andamento no Brasil. O laboratório tem 69 pesquisas em diferentes moléculas e diferentes fases de desenvolvimento, envolvendo 285 insti­tuições e mais de dois mil profissionais em centros de pesquisa e universidades.
 
Em que pesem os grandes investi­mentos em P&D, a indústria farmacêu­tica ainda vê desafios para expandir a inovação no setor. Um deles é a alta car­ga tributária, na opinião de Mussolini, do Sindusfarma. Outro desafio está na harmonização das normas de pesquisa clínica aos padrões internacionais que regulam a matéria no mundo. "É um tema que interessa à Sanofi, que inves­te consistentemente em pesquisa mé­dica no Brasil por meio de sua unidade de estudos clínicos em São Paulo, que emprega cem profissionais e conduz atualmente mais de 54 testes clínicos, entre estudos globais e regionais para as quatro empresas de saúde humana do grupo (Farma, Medley, Sanofi Pasteur e Genzynme)", afirma Pius Hornstein, diretor-geral do grupo francês no Brasil.
 
As inversões em pesquisa e desenvolvi­mento da Sanofi no país alcançaram mais de US$ 125 milhões na última década. Se­gundo Hornstein, o laboratório trabalha a inovação de forma transversal, envolvendo diversas áreas da empresa. Além disso, tam­bém fomenta a pesquisa científica no Bra­sil a partir de parcerias com organizações públicas e privadas. "Nos últimos quatro anos, 25% das receitas da Sanofi no Brasil vieram de lançamentos de novos produtos e apresentações", diz. A divisão de vacinas do grupo, a Sanofi Pasteur, submeteu à Anvisa no fim de março o dossiê científi­co para a obtenção do registro da vacina contra a dengue.
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