Veículo: Anuário Inovação Brasil - Valor Econômico
Jornalista: Margarida O. Pfeifer
A Indústria farmacêutica é o setor que mais prioriza a inovação no Brasil. Os números da pesquisa feita pela Strategy& [do grupo PwC] em conjunto com o Valor revela que 83% das companhias farmacêuticas têm cultura de inovação, quesito que aparece como principal estratégia do negócio em dois terços das empresas pesquisadas, sendo que as demais colocam a inovação entre as três ou cinco prioridades da companhia. É o segmento que mais investe em práticas inovadoras. Todas as farmacêuticas declararam investir mais de 5% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento (P&D).
Outros resultados da pesquisa reforçam a importância das políticas de inovação para o setor: a totalidade das empresas tem gerência aberta a novas ideias; dois terços formaram parcerias com instituições de pesquisa, universidades, ONGs, entre outras, para desenvolver P&D; todas possuem equipes exclusivas de P&D/Inovação, sendo que em metade delas essas equipes respondem diretamente ao cargo mais alto da empresa.
"A indústria farmacêutica é um setor que depende de inovação em grau bastante elevado, muito mais do que outros", afirma Fernando Fernandes, consultor e sócio da Strategy&. Esta condição está ligada à natureza do que essas companhias fazem. "O principal produto de qualquer indústria farmacêutica que não seja de genéricos é inovação. E arrisco dizer que mesmo as que produzem genéricos têm inovação, porque essa ação não se restringe apenas a produto novo, mas também a processos e estruturas", afirma.
Primeira colocada no ranking setorial, a Novartis tem na inovação um dos seus pilares estratégicos fundamentais, segundo José Antônio Vieira, presidente da companhia no Brasil. "Nosso foco principal de investimento é no desenvolvimento de estudos clínicos, área em que somos líderes no país, de acordo com levantamento da consultoria Cortellis Trials Inteligence-Thompson Reuters. Isso mostra como é expressiva a participação do Brasil no grupo", diz.
Nos últimos três anos, a Novartis aplicou no país R$ 170 milhões, propiciando atendimento a mais de 25 mil pacientes por meio de 460 pesquisas clínicas. Com receita anual de RS 3,3 bilhões, a empresa no Brasil emprega três mil pessoas, 300 delas dedicadas exclusivamente a projetos de inovação. O grupo Novartis, com sede na Suíça e faturamento anual de US$ 58 bilhões, investiu USS 9,9 bilhões em P&D em 2014, posicionando-se entre as dez companhias mais inovadoras do mundo.
O pipeline da companhia conta com 34 novas moléculas patenteadas. Recentemente, o grupo sofreu uma reestruturação global e passou a focar em três áreas de negócios vistas como de grande potencial inovador e de crescimento: a Farma, de medicamentos nas áreas cardiovascular, respiratória, doenças infecciosas e oncologia; a Alcon, líder global de produtos oftalmológicos; e a Sandoz, de genéricos e biossimilares.
A Novartis Brasil conduz atualmente 200 estudos clínicos, dos quais 141 projetos estão Ligados à divisão Farma. A empresa não tem centro próprio de pesquisa no Brasil, mas desenvolveu parcerias com mais de 300 centros brasileiros. As principais conquistas da Novartis Brasil, além dos estudos clínicos, estão centradas na chamada inovação incrementai, já que a pesquisa radical, para transformar uma molécula em um remédio viável à saúde humana, está concentrada em Basiléia (Suíça), cidade-sede do grupo. Vieira destaca a criação do Cataflan Ice, spray gelado do anti-inflamatório que antes era apresentado apenas em pomada e gel. "Foi um desenvolvimento feito no Brasil do início ao fim e incorporado pelo grupo no mundo", explica o presidente da farmacêutica.
Embora a Novartis venha apresentando crescimento sólido de dois dígitos nas vendas nos últimos anos, Vieira vê como grande desafio para a indústria farmacêutica brasileira tornar mais rápido o acesso dos pacientes a medicamentos inovadores. "Os lançamentos no Brasil têm um gap de dois anos em relação a outros países. São dois anos que o paciente fica sem acesso ao produto", afirma Vieira.
Esse é um gargalo importante, segundo Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma), já que a indústria farmacêutica brasileira depende mais da inovação em produtos realizada em outros países. "O setor no Brasil não é mais dominado por multinacionais, como foi tempos atrás. Hoje, as nacionais representam de 52% a 55% do mercado, principalmente devido ao grande crescimento do mercado de genéricos no país", observa Mussolini.
Em geral, são as multinacionais que trazem para o país os produtos mais inovadores, desenvolvidos por suas matrizes. De acordo com o presidente do Sindusfarma, o mercado farmacêutico brasileiro não tem escala para ser um player internacional da inovação. "Temos apenas 4% do mercado mundial e importamos entre 90% e 95% dos insumos para a produção de medicamentos da China, índia e países europeus, porque não temos uma indústria de química fina desenvolvida."
Mesmo assim, é um mercado robusto, integrado por 269 empresas, que realizaram vendas totais de quase RS 66 bilhões em 2014 e há mais de dez anos mantém um ritmo de crescimento anual médio acima dos 14%. Para Mussolini, o Brasil aprendeu a fazer remédio de qualidade. "O Brasil tem uma posição medíocre na descoberta, desenvolvimento e patenteamento de novos medicamentos e desproporcional à qualidade da nossa ciência. Considerando a qualidade dos nossos cientistas, poderíamos ser muito mais importantes nessa área", afirma Antônio Britto, presidente da Associação cia Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).
Diminuir o tempo de desenvolvimento da molécula até ela virar uma caixa de remédio na farmácia é o grande desafio da indústria farmacêutica hoje, na opinião de Sandra Abrahão, diretora-médica da Bayer Brasil, segunda colocada no ranking setorial. "Uma empresa de medicamentos vive de produtos novos. Quanto mais diminuir esse prazo, maior o aumento da rentabilidade do negócio." Outro gargalo importante no Brasil para a prática de inovação, segundo a diretora da Bayer, é o tempo de aprovação para a realização das pesquisas clínicas. "No Brasil, esse processo demora um ano, enquanto no Canadá e Estados Unidos são apenas dois meses", compara. No ano passado, a Bayer, segundo ela, perdeu o prazo para participar de estudos clínicos de três medicamentos, dois de oncologia e um para doença infecciosa, por atraso da Anvisa. "A indústria tem tido certa dificuldade de incluir o Brasil nas pesquisas", diz. Mesmo assim, o país é um dos quatro centros de farmacovigilância do grupo Bayer no mundo, com 150 profissionais, e responsável por 50% do fluxo de trabalho global do grupo.
Este ano, a Bayer planeja inversões de RS 213 milhões no Brasil em P&D/inova- ção, além de modernização em instalações e projetos socioambientais. A Bayer é líder no segmento de saúde da mulher. De sua fábrica de hormônios sólidos (pílulas e comprimidos), em São Paulo, saíram no ano passado dois bilhões de comprimidos para abastecer o mercado brasileiro e mais de 40 países da América Latina e Ásia. A empresa é responsável por cerca de 10% das exportações da indústria farmacêutica brasileira.
Única empresa 100% nacional entre as cinco primeiras do ranking, o Aché investiu no ano passado RS 58 milhões em P&D/ inovação. "Em 2015, vamos manter 10% da geração de caixa operacional em pesquisa, desenvolvimento e inovação", afirma Paulo Nigro, presidente do Aché. "Os resultados foram bons. Em 2014, lançamos 19 novos produtos e apresentações e no fim do ano obtivemos sete novos registros na Anvisa." O pipeline da empresa é formado por 184 projetos em desenvolvimento para os próximos anos. Atualmente, a Aché possui 46 patentes no Brasil e no exterior, 15 delas já concedidas e 31 em análise.
Para ampliar seu horizonte comercial e de inovação, o Aché formou uma ampla cadeia de parceiros internacionais, que incluem a inglesa Oxford Pharmascience (suplementação alimentar), a canadense Prollenium Medicai Technologies (tratamento estético), entre outras. As parcerias são uma via de mão dupla, como a realizada com a mexicana Silanes, que passou a comercializar no México os medicamentos do Aché, um deles o hipertensivo Lotar, primeira marca própria do laboratório brasileiro fora do país. Um resultado recente dessa política foi a chegada ao Brasil de dois probióticos indicados para o equilíbrio da microbiota intestinal e fruto da parceria com o laboratório sueco Biogaia.
"Temos duas linhas de inovação: a radical, que desenvolve novos princípios ativos, na qual temos 15 projetos, e a incrementai, que traz para o país produtos já existentes no mundo e cria melhorias de ativos existentes no país", afirma Nigro. O centro de pesquisa no Brasil mantém57 profissionais de diversas áreas envolvidos com inovação. Com a iminente vigência do novo marco legal que regula o acesso à biodiversidade brasileira para fins de pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico, aprovado este ano, a Aché vai retomar a avaliação de mais de 20 oportunidades de projetos.
Outra farmacêutica posicionada entre as cinco mais inovadoras é a Janssen, pertencente ao grupo Johnson &Johnson. Para focar cada vez mais em inovação, a companhia mudou a estratégia do negócio nos últimos anos, restringindo sua atuação a áreas em que há necessidades não preenchidas, segundo Luis Díaz-Rubio, presidente da Janssen Brasil.
"As áreas importantes para a companhia hoje são oncologia, imunologia, doenças infecciosas, sistema nervoso central, cardiologia e metabolismo", elenca. AJanssen, segundo ele, é a quinta companhia em número de pesquisas em andamento no Brasil. O laboratório tem 69 pesquisas em diferentes moléculas e diferentes fases de desenvolvimento, envolvendo 285 instituições e mais de dois mil profissionais em centros de pesquisa e universidades.
Em que pesem os grandes investimentos em P&D, a indústria farmacêutica ainda vê desafios para expandir a inovação no setor. Um deles é a alta carga tributária, na opinião de Mussolini, do Sindusfarma. Outro desafio está na harmonização das normas de pesquisa clínica aos padrões internacionais que regulam a matéria no mundo. "É um tema que interessa à Sanofi, que investe consistentemente em pesquisa médica no Brasil por meio de sua unidade de estudos clínicos em São Paulo, que emprega cem profissionais e conduz atualmente mais de 54 testes clínicos, entre estudos globais e regionais para as quatro empresas de saúde humana do grupo (Farma, Medley, Sanofi Pasteur e Genzynme)", afirma Pius Hornstein, diretor-geral do grupo francês no Brasil.
As inversões em pesquisa e desenvolvimento da Sanofi no país alcançaram mais de US$ 125 milhões na última década. Segundo Hornstein, o laboratório trabalha a inovação de forma transversal, envolvendo diversas áreas da empresa. Além disso, também fomenta a pesquisa científica no Brasil a partir de parcerias com organizações públicas e privadas. "Nos últimos quatro anos, 25% das receitas da Sanofi no Brasil vieram de lançamentos de novos produtos e apresentações", diz. A divisão de vacinas do grupo, a Sanofi Pasteur, submeteu à Anvisa no fim de março o dossiê científico para a obtenção do registro da vacina contra a dengue.