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01/04/2026
Anvisa e Sindusfarma discutem evolução dos análogos de GLP-1 e desafios regulatórios no Brasil
Participantes do Seminário “Análogos de GLP-1: Evolução Terapêutica, Ambiente Regulatório e Perspectivas para o Futuro”

Os avanços no tratamento da obesidade e da diabetes tipo 2 estão no centro de uma transformação global da saúde. Nesse contexto, os análogos de GLP-1 emergem como protagonistas de uma nova era terapêutica, com impactos que vão além do controle glicêmico e alcançam a qualidade de vida, a redução de complicações e até a sustentabilidade dos sistemas de saúde. Foi com esse foco que especialistas, reguladores e representantes da indústria farmacêutica se reuniram em Brasília para debater os caminhos dessa inovação.

O seminário “Análogos de GLP-1: Evolução Terapêutica, Ambiente Regulatório e Perspectivas para o Futuro”, promovido pela Anvisa em parceria com o Sindusfarma, foi realizado na última sexta-feira, 27, no auditório da Agência. A abertura contou com a participação de Daniela Marreco e Marcelo Mário Matos Moreira, diretores da Anvisa, e de Rosana Mastellaro, diretora técnico-regulatória e de inovação do Sindusfarma.

Durante a abertura, os participantes destacaram a relevância científica e estratégica do tema. O GLP-1, hormônio produzido no intestino após as refeições, atua como regulador metabólico ao estimular a liberação de insulina, promover saciedade e influenciar a digestão. Seus análogos sintéticos, como semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida, ampliaram esse efeito ao oferecer maior estabilidade e duração no organismo.

Rosana Mastellaro destacou o papel do setor na evolução dessas terapias. “É muito bom participar dessa revolução e por isso é importante a presença de todos que atuam no desenvolvimento do setor”, afirmou. Segundo ela, o objetivo é “desenvolver tecnologias alinhadas aos mais avançados estudos mundiais”.

Marcelo Moreira ressaltou a importância do ambiente regulatório para viabilizar o acesso às inovações. “Esses medicamentos têm impacto não só na saúde das pessoas, como nas contas públicas com a redução relevante dos custos de tratamentos”, disse. Ele também reforçou que “é fundamental promover o uso racional desses medicamentos” e destacou que o seminário marca o início de uma agenda contínua sobre o tema.

Daniela Marreco chamou atenção para a complexidade regulatória. “Os estudos dos análogos do GLP-1 são um grande desafio. É preciso avaliar e regular esses produtos que até outro dia não estavam em pauta”, afirmou. Ela acrescentou que “a obesidade e o diabetes são um problema não só do Brasil, mas do mundo todo” e defendeu decisões alinhadas às evidências científicas internacionais.

Desenvolvimento clínico

O avanço dos análogos de GLP-1 foi analisado sob a perspectiva científica e industrial logo no primeiro painel do seminário, dedicado ao desenvolvimento clínico e biológico dessas terapias. Especialistas destacaram a complexidade dos estudos, os desafios produtivos e o papel estratégico da inovação no setor farmacêutico.

A diretora médica da Novo Nordisk, Priscila Mattar, apresentou a trajetória da empresa no desenvolvimento dessas moléculas e destacou a robustez dos estudos clínicos conduzidos globalmente, inclusive no Brasil. Segundo ela, mais de 3.800 participantes estão atualmente envolvidos em pesquisas com esses medicamentos.

A executiva relembrou que os avanços no desenvolvimento da insulina ganharam força a partir da década de 1980, período em que também se iniciaram os estudos com o GLP-1. Ela ressaltou o papel da Anvisa no acompanhamento dessas pesquisas e na consolidação do ambiente regulatório que possibilitou a transformação dessas moléculas em terapias para obesidade e diabetes.

“A gente pode explorar o enorme campo de aplicação desse medicamento, que inclusive proporciona a redução da pressão arterial sistólica”, afirmou. Segundo ela, um dos desafios foi desenvolver formulações de ação prolongada, como as de aplicação semanal. “É muito importante um olhar para todo o processo produtivo, até a etapa final de formulação”, destacou.

Priscila Mattar também chamou atenção para a sensibilidade do processo produtivo. “Mesmo pequenas alterações podem afetar a segurança dos produtos”, disse, ao explicar que as respostas imunológicas aos peptídeos podem variar significativamente. A empresa já conduziu mais de 60 estudos com cerca de 60 mil pacientes tratados com liraglutida e semaglutida, em versões orais e injetáveis.

Representando a Eli Lilly, o diretor André Magno destacou o alto investimento da companhia em inovação, com 24,4% da receita destinada à pesquisa e desenvolvimento e 22,8% dos colaboradores dedicados à área. Ele ressaltou o impacto dessas terapias diante do cenário brasileiro. “São 17 milhões de brasileiros com obesidade com fatores associados, e esses novos medicamentos reduzem mortes”, afirmou.

O executivo destacou ainda os desafios relacionados à produção de macromoléculas complexas. “O processo de produção vai precisar de muito trabalho do ponto de vista regulatório”, disse. Segundo ele, garantir a consistência das moléculas ao longo da fabricação é essencial. “Produzir essas moléculas sintéticas é um grande desafio”, concluiu, ao enfatizar a necessidade de assegurar que o produto final seja idêntico ao desenvolvido em laboratório.

Já o cardiologista Iran Gonçalves, da EMS, abordou os desafios industriais e de qualidade na produção de peptídeos. Ele destacou a importância de técnicas analíticas avançadas para garantir a pureza das substâncias. “É preciso separar as impurezas com técnicas analíticas e determinar o que está acontecendo naquele processo químico”, explicou.

O especialista reforçou a necessidade de precisão na fabricação. “É preciso que a molécula que está sendo criada seja exatamente igual à molécula original”, alertou. Ele também destacou que os desafios não se limitam ao insumo farmacêutico ativo, mas incluem o produto final.

No caso das canetas injetoras, diversos testes são necessários para assegurar desempenho e segurança. “Temos que testar centenas de variáveis que podem ocorrer com o equipamento para garantir a qualidade do produto”, finalizou.

Priscila Mattar, diretora médica da Novo Nordisk

Transformação no tratamento

No painel "Quebra de paradigmas e impacto social e comportamental”, o endocrinologista João Eduardo Nunes Salles, da Sociedade Brasileira de Diabetes, destacou a mudança de paradigma trazida por essas terapias. Segundo ele, o GLP-1 representa um divisor de águas no cuidado ao paciente.

O especialista explicou que o tratamento deixou de focar apenas em indicadores laboratoriais e passou a atuar de forma abrangente no risco cardiometabólico. Entre os benefícios observados estão a redução de eventos como infarto e AVC, além de melhorias na função renal e na insuficiência cardíaca.

Ele também ressaltou que há maior personalização das terapias e decisões mais precoces, alinhadas a diretrizes globais, o que contribui para ampliar a expectativa e a qualidade de vida dos pacientes.

O crescimento do uso desses medicamentos também traz desafios importantes para a vigilância sanitária. O gerente geral da Anvisa, Daniel Roberto Coradi de Freitas, destacou a necessidade de aprimorar a capacidade analítica e o monitoramento de eventos adversos.

Segundo ele, houve aumento expressivo de notificações relacionadas à semaglutida no Brasil entre 2019 e março de 2025. Esse cenário está associado a fatores como uso sem prescrição, armazenamento inadequado e circulação de produtos falsificados.

“O uso crescente e a diversidade dos eventos adversos exigem avaliação sistêmica e protocolos atualizados”, afirmou. Ele reforçou que o enfrentamento desses desafios depende da cooperação entre órgãos reguladores e o setor produtivo.

Combate à desinformação

A percepção pública sobre os tratamentos para obesidade e diabetes e o papel da mídia foram apontados como fatores críticos para o uso seguro e eficaz dos análogos de GLP-1. O tema foi abordado pela médica Carolina Janovsky, da Unifesp, que destacou a necessidade de estratégias responsáveis de comunicação diante do crescimento do uso desses medicamentos, como a semaglutida.

Segundo a especialista, ainda há barreiras importantes de acesso ao tratamento, o que torna essencial uma orientação clara por parte dos profissionais de saúde. Ela alertou para o impacto da desinformação, especialmente nas redes sociais. “Pessoas morrem por aplicação de medicamentos por orientação de amigos ou da internet”, afirmou.

Carolina Janovsky destacou que o avanço dessas terapias também vem acompanhado de forte expansão de mercado. De acordo com ela, os medicamentos baseados em GLP-1 registram crescimento expressivo, com estimativa de receita de R$ 10 bilhões em 2025. A médica citou ainda efeitos indiretos desse movimento, como impactos econômicos em outros setores, a exemplo da aviação, devido à redução média do peso corporal da população.

Apesar dos avanços, a especialista lembrou que o sobrepeso ainda afeta cerca de metade da população mundial, reforçando a dimensão do desafio em saúde pública.

Durante a apresentação, ela defendeu cinco princípios para uma comunicação responsável: reconhecer a obesidade e o diabetes como doenças, diferenciar corretamente as indicações terapêuticas, contextualizar benefícios e riscos, orientar o acesso seguro e reforçar a necessidade de acompanhamento contínuo. “É preciso reforçar que é um tratamento contínuo e de longo prazo”, explicou.

A médica também enfatizou a importância de medidas práticas para reduzir riscos, como o uso estritamente sob prescrição médica e a rejeição de produtos sem procedência. Para pacientes que buscam emagrecimento, a orientação é procurar avaliação médica antes de iniciar qualquer tratamento.

Na avaliação da especialista, o avanço regulatório dessas terapias deve caminhar junto com uma comunicação clara e qualificada. O objetivo é evitar expectativas irreais e proteger a população dos riscos associados à circulação de informações incorretas.

Brasil alinhado às tendências globais

Na mesa de encerramento, os participantes destacaram que o Brasil está alinhado às principais tendências internacionais no enfrentamento da obesidade e do diabetes. Entre os pontos discutidos, estiveram a necessidade de testes rigorosos de qualidade dos dispositivos e o fortalecimento da regulação.

O consenso é que ainda há desafios relevantes, tanto no desenvolvimento quanto no acesso seguro aos tratamentos. Rosana Mastellaro reforçou o papel do seminário nesse processo. Segundo ela, a iniciativa buscou ampliar o conhecimento das empresas sobre a complexidade do desenvolvimento e da regulação desses medicamentos.

O encontro evidenciou que os análogos de GLP-1 representam não apenas uma inovação terapêutica, mas também um avanço estratégico para a saúde pública, exigindo integração entre ciência, regulação e indústria para garantir benefícios sustentáveis à população.

Marcelo Mário Matos Moreira, da Anvisa
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