Pesquisa clínica exige ética e foco no paciente, defendem especialistas em workshop no Sindusfarma
O segundo e último dia do workshop “Pesquisa Clínica: Inovação, Regulação e Pacientes”, promovido pela Green Rock, gestora independente de Venture Capital e Private Equity, com apoio do Sindusfarma, Abiquifi, Abracro e Interfarma, aprofundou os debates sobre ética, medicina baseada em evidências e o papel do paciente no fortalecimento da pesquisa clínica no Brasil.
Os painéis reuniram especialistas das áreas médica, política e de pesquisa para discutir os impactos da desinformação, os desafios regulatórios e a necessidade de ampliar práticas centradas no paciente como elemento essencial para o desenvolvimento científico e a credibilidade do setor.
Medicina baseada em evidências e ética ganham protagonismo
Na palestra sobre o papel do médico pesquisador na sociedade, o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta abordou a evolução histórica da pesquisa médica e destacou a importância da medicina baseada em evidências diante do avanço da desinformação durante a pandemia de Covid-19.
Segundo ele, a crise sanitária expôs um cenário marcado pela circulação simultânea de informações científicas e conteúdos sem comprovação, potencializados pelas redes sociais e pela comunicação em tempo real. O ex-ministro ressaltou ainda a relevância histórica e estratégica do Programa Nacional de Imunizações (PNI), destacando a capacidade brasileira de mobilização e vacinação em larga escala como um diferencial reconhecido internacionalmente.
Ao comentar os desafios enfrentados durante a pandemia, Mandetta criticou a defesa de tratamentos sem eficácia comprovada e reforçou que decisões em saúde pública precisam estar sustentadas em princípios éticos, responsabilidade profissional e evidências científicas.
“Durante a Covid-19, encontramos a ciência, os princípios e toda a base ética da medicina sendo confrontados pela defesa de tratamentos sem comprovação. A pandemia mostrou a importância de decisões sustentadas em evidências e revelou como a pesquisa clínica e a ciência são fundamentais para proteger a população diante de ameaças desconhecidas”, afirmou.
Ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, alertou para os impactos da desinformação na saúde pública
Acesso à inovação como pauta de interesse público
A ex-senadora Ana Amélia Lemos destacou a importância da ampliação do acesso dos pacientes a terapias inovadoras e relembrou a tramitação da Lei 14.874/2024, que regulamenta a pesquisa clínica no Brasil.
Segundo ela, a proposta surgiu a partir da experiência de um paciente com câncer de pulmão que ampliou significativamente sua sobrevida ao participar de um estudo clínico. A ex-parlamentar afirmou que o projeto enfrentou resistência política e burocrática ao longo dos nove anos de tramitação no Congresso Nacional.
“Quando chegou às minhas mãos a proposta sobre pesquisa clínica, ela veio de um caso concreto: um paciente com câncer de pulmão que tinha apenas quatro meses de expectativa de vida. Ao ingressar em uma pesquisa clínica, ganhou cinco anos de sobrevida e realizou o sonho de ver a formatura da filha. Foi ali que entendi a relevância da pesquisa clínica e a urgência de acelerar o acesso das pessoas à inovação”, disse.
Ana Amélia também defendeu maior agilidade regulatória para ampliar o acesso de pacientes a tratamentos inovadores, especialmente em doenças graves.
“O câncer tem pressa, as doenças têm pressa. Como esperar dois anos pelo registro de uma pesquisa clínica? A pessoa vai morrer. Que direito tem um detentor de cargo público de determinar se um cidadão terá ou não acesso a um medicamento, seja ele rico ou pobre?”, questionou a ex-senadora.
Ex-senadora Ana Amélia Lemos relembrou a tramitação da lei que regulamentou a pesquisa clínica no Brasil
Paciente deve estar no centro da pesquisa clínica
“O único indivíduo da pesquisa clínica que não é substituível é o paciente. Se não for tratado com respeito, acolhimento e dignidade, comprometemos não apenas a experiência humana, mas também a qualidade da ciência produzida”, afirmou o cardiologista José Francisco Kerr Saraiva durante o painel sobre ética e pesquisa clínica.
Para o especialista, fortalecer um modelo efetivamente centrado no paciente é fundamental para ampliar a confiança da sociedade e elevar a qualidade da pesquisa clínica no país. Saraiva criticou falhas operacionais que comprometem a adesão e a retenção de voluntários, como longos períodos de espera, dificuldades de deslocamento e ausência de acompanhamento adequado ao longo dos estudos.
Segundo o cardiologista, o principal desafio do setor não está apenas na regulamentação, mas na aplicação prática dos princípios éticos no cuidado aos participantes. Para ele, a credibilidade da pesquisa clínica depende diretamente da experiência oferecida ao voluntário, incluindo comunicação clara, suporte contínuo e condições adequadas de acolhimento em todas as etapas do estudo.
Da esq,: José Francisco Kerr Saraiva (médico), Ana Amélia Lemos (ex-Senadora) e Henrique Mandetta (ex-Ministro da Saúde)
Perspectivas para o setor
Ao fazer um balanço das palestras e dos temas debatidos durante o workshop “Pesquisa Clínica: Inovação, Regulação e Pacientes”, o cofundador da Green Rock, Luis Vitor de Lima Salomão, afirmou que a empresa está “extremamente satisfeita com a qualidade, a intensidade e a quantidade de ideias e ações essenciais para esse setor, que está renascendo”.
Segundo ele, a expectativa é que as discussões promovidas durante o encontro contribuam para acelerar o desenvolvimento da pesquisa clínica no Brasil e fortalecer o posicionamento do país no cenário internacional. “Esperamos que, com o nosso trabalho, possamos acelerar ainda mais a pesquisa clínica no Brasil, para que ela venha ocupar o lugar que merece”, destacou.
Rosana Mastellaro, diretora Técnico-Regulatória e de Inovação do Sindusfarma, afirmou que o workshop reforçou a importância do diálogo entre diferentes atores para o fortalecimento do ecossistema de pesquisa clínica no país.
“Este workshop reafirma que o fortalecimento da pesquisa clínica no Brasil depende da qualidade do diálogo entre governo, academia, indústria, agências regulatórias, centros de pesquisa e sociedade. Tivemos discussões extremamente ricas, com diferentes perspectivas convergindo para um mesmo objetivo: criar um ambiente mais maduro, ético, inovador e atrativo para o desenvolvimento científico e para o fomento à inovação no país”, afirmou a executiva.